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A beleza dá-me força para lutar contra o cancro

29 de Dezembro 2010
Faz sentido que alguém com cancro se preocupe com o cabelo, com a pele ou com o estado das unhas? Faz. Os estudos científicos vêm confirmar aquilo que há muito as mulheres descobriram por si próprias - a beleza é fundamental. E no Centro de Aconselhamento Estético do Movimento Vencer e Viver aprende-se a cuidar dela.

Elegante, Sara avança com passos decididos para a sala de makeup. Ajeita o cabelo, olhando-se no espelho, e depois roda nos sapatos desalto alto e senta-se, com as costas muito direitas, o queixo erguido e o olharfixo na câmara. Sabe que está bonita, fez por estar bonita, mas, ainda assim,explica ao repórter fotográfico que é importante que as fotos a mostrem bonita.Quer fazer passar uma mensagem: "Cancro não é vergonha e não é morte. Cancroé guerra."

"Sara CoutinhoMelo, 43 anos." Diz o nome devagar e verifica se foi escritocorrectamente. Dar a cara, identificar-se, faz parte da sua missão e não querser mal entendida. Recuperou do silêncio imposto pelas metástases cerebrais,mas a fala continua hesitante. Sorri, sem embaraço, quando a palavra certa lhefoge; e ri a contar que muitas vezes os desconhecidos confundem aquelas pausas,a meio de uma frase, com as dificuldades de um estrangeiro no domínio doportuguês. "Perguntam-me: "Francesa? Inglesa? Alemã?" E eurespondo: "Não. Portuguesa com cancro. Vigia as tuas mamas!""Sabe que é desconcertante. Aposta nisso. Causado o choque, desfaz com umsorriso o constrangimento que provoca nos outros: "A sério, vigia as tuasmamas!"

Sara posa na sala em que funciona o Centro de Aconselhamento Estético doMovimento Vencer e Viver. Um espaço inesperadamente alegre na sede de Coimbradaquele braço da Liga Portuguesa contra o Cancro. É uma mistura de estúdiofotográfico moderno (dominado por um chapéu-de-chuva prateado que distribui umaluz suave e envolvente) e de sala de maquilhagem de telenovela juvenil, com asparedes corridas a uma tira de tinta rosa-choque. 

De um lado o espelho e uma mesa forrada com produtos de maquilhagem coloridos;do outro, um armário de onde saem turbantes mais ou menos provocantes, gorrosjuvenis ou discretos e cabeleiras de todos os tons, com cortes simples ousofisticados. 

A ideia de criar aquele espaço, que rapidamente atraiu patrocínios e apoiosdiversos, concretizou-se este ano, em Abril, mas germinara há muito. "Achoque pensava nisto desde que tive de ir ao Porto, subir umas escadas estreitas,sinistras, e entrar num compartimento sombrio onde um homem me estendeu umaperuca sem forma nem corte", diz Salete Bastos, coordenadora regional enacional do movimento. 

Foi há 11 anos e a prótese capilar que adquiriu antes de iniciar aquimioterapia custou-lhe o equivalente a 1000 euros. Aquela que agora roda nasmãos - assim como todos os outros produtos que estão no gabinete - é vendida apreço de custo (cerca de 60 euros): "Todas as mulheres têm direito acuidar da sua imagem durante a doença. É muito, muito importante", diz acoordenadora.

Uma espécie de encenação

Não é por acaso que as voluntárias do movimento são todas sobreviventes decancro na mama. Sabem por experiência e instinto o que outros estão agora avalidar cientificamente, depois de anos de investigação. "As mulheres queinvestem na sua própria imagem durante os tratamentos mantêm uma relação mais positivacom o seu próprio corpo ao longo da doença e em fase de recuperação e estãomenos sujeitas a depressões", confirma Helena Moreira, uma investigadorada Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra que, em Janeiro, defendea sua tese de doutoramento sobre a imagem corporal da mulher com cancro damama. Aquela investigadora fala naimportância da gestão da imagem como um factor protector, associado a umasensação de domínio sobre a realidade numa fase da vida da mulher em que tudoparece fugir ao seu controlo. Sónia Silva, que também faz investigação na área da psico-oncologiae trabalha como psicóloga voluntária na Liga Portuguesa contra o Cancro,recorda estudos recentes que demonstram que as pessoas consideradas bonitas sãomais confiantes e transmitem uma imagem de maior competência, o que contribuipara um maior sucesso em entrevistas de emprego e na conquista de cargos maisbem remunerados."No momento em que provavelmente enfrentam o maior desafiodas suas vidas, essa autoconfiança é muito importante, essencial para que asmulheres consigam colocar a doença no seu lugar e se sintam competentes para aenfrentar. Destroçada por dentro, linda por fora: The show must goon!", continua Sónia Silva.

Não é só a expressão informal da psicóloga que remete para um mundo deespectáculo, em que a vida dita normal se transforma, de um momento para ooutro, numa espécie de encenação, que tem de se manter a todo o custo paraevitar que tudo, à volta, comece a ruir. 

A decoração do Centro de Aconselhamento Estético também transporta quem láentra para um universo de fantasia. Contudo, é à linguagem bélica que asmulheres com cancro recorrem para expressar a importância que aquele apoio temnas suas vidas. Quando dali saem entram num palco - mas num palco de guerra.

"Sentir-me bonita é essencial, é a minha armadura", diz Fátima, de 38anos. "A minha imagem é o meu escudo e, ao mesmo tempo, a minhaarma", descreve Teresa, de 52. "Não preciso de pena, preciso deforça. E a beleza dá-me essa força, permite-me avançar assim", insiste Sara Coutinho, atirando osombros para trás e erguendo o queixo, como quem enfrenta um inimigo.

Vivem momentos diferentes. Fátima, uma enfermeira com um rosto jovem e bonitosob a farta cabeleira negra, mãe de três filhos, divorciada, está a fazer oprimeiro ciclo de quimioterapia, antes da cirurgia. Teresa, educadora, com umafilha adulta e um casamento estável, já fez a mastectomia e enfrenta um novociclo de quimio. Sara é uma veterana: "Primeiro mama, dois anos depoisovários e útero e em 2004 cérebro", enumera. Faz uma pausa e com oindicador aponta, sucessivamente, as três datas escritas num bloco deapontamentos: "Uma, duas, três. Doze anos, três batalhas. Todasvencidas." Para além de dificuldades na fala, a radioterapia tornou permanentea falta de cabelo. "E de sobrancelhas", aponta, sem embaraço. Estãopintadas, a lápis - quem não souber não repara. 

Apesar de não haver investigação significativa na área, os poucos estudos queexistem mostram que a perda de cabelo provocada pela toxicidade dos tratamentosquímicos para o cancro da mama é um dos grandes desafios que estas mulheresenfrentam. 

Fátima diz que sempre foi vaidosa dos seus cabelos negros, longuíssimos. Aindanão perdeu a mama, mas já sabe avaliar a dor de não se reconhecer no espelho."Já tinha comigo a prótese, muito parecida com o meu cabelo natural,quando fui ao meu cabeleireiro rapar a cabeça. É um acto íntimo, doloroso,estávamos ambos muito emocionados", diz. Teresa conta que não chorouquando viu a cicatriz no peito. Mas que antes disso, quando cabelo começou acair, se desfez em lágrimas: "A mama tinha o mal, quanto mais depressa otirasse melhor. Mas a perda dos cabelos, das sobrancelhas, das pestanas...Olhava e não era eu!"Sónia Silva lembra que são muitos e às vezes contraditórios ossentimentos que naquele momento dominam a mulher. Para além de a imagem fazerparte da identidade de cada um, a perda do cabelo ainda está muito associada àdoença como sendo consequência do cancro e não do tratamento, nota. "Nãosuporto que olhem para mim como se eu tivesse recebido uma sentença demorte", confirma Fátima. E, no entanto, a procura de ajuda e oinvestimento na imagem nem sempre é fácil. Muitas mulheres, conta HelenaMoreira, mostram-se embaraçadas por atribuírem tanta importância à imagem.Dizem: "Tenho uma doença potencialmente fatal e estou a preocupar-me com ocabelo, com o inchaço, com as unhas. O que é que os outros hão-depensar?" 

Guerra solitária

A guerra que cada mulher trava acaba por ser muito solitária e, mesmo que seesforcem, os familiares e amigos nem sempre conseguem quebrar essa outraarmadura em que a mulher com cancro da mama se fecha. Por exemplo: é positivoque a façam sentir-se bonita, mas relativizar a doença, a queda do cabelo, aperda da mama, pode ser entendido como falta de empatia, de compreensão e derespeito pela sua dor.

Aliás, nada é simples. Quem investia na imagem de forma saudável e continua afazê-lo após o diagnóstico, sem "deixar o corpo desistir", comodescreve Sara, tem menos depressões. Mas as mulheres que antes da doença davamum valor disfuncional ao seu aspecto físico, fazendo depender dele aauto-estima e confundindo-o com a própria identidade, estão mais vulneráveis doque as restantes, concluiu Helena Moreira. 

Um dos estudos aponta para a necessidade de os profissionais de saúdeobservarem qual o valor que cada mulher atribui à sua imagem, particularmenteno início da doença, "para que, ao longo das fases que se seguem, possamser implementadas as estratégias adequadas". Isto implica também adivulgação dos vários meios que a mulher tem ao seu dispor (das prótesesmamárias à cirurgia reconstrutiva, passando pelos lenços e turbantes durante aquimioterapia). E é neste campo, considera Helena Moreira, que a disseminaçãode centros do género do que existe em Coimbra, criado pelo Movimento Vencer eViver, se torna fundamental.

Fátima e Teresa dizem que não sabem como teriam aguentado, sem aquele apoio.Uma emociona-se quando fala dos filhos pequenos, do cuidado que tem para que avejam sempre bem. A outra confessa que nem gosta muito "dos cabelosalourados, de dondoca", mas que a revolução na imagem é compensada peloolhar do marido, que a acha "ainda mais bonita". Nenhuma querapelidos ou fotos no jornal, algo que Sara não compreende. "Não é bom. Umapessoa de costas, na fotografia, passa a imagem errada. Cancro não évergonha", protesta. 

Helena Moreira compreende as três. E acredita que, um dia, Fátima e Teresaentenderão a postura de Sara, que "com a mesma coragem de figuraspúblicas, como Fernanda Serrano, se expõe para combater o estigma do cancro damama e mostrar que ele acontece a qualquer uma e que não é necessariamentedestruidor e mortal". Sara é menos paciente, esquece que as outras sóagora estão a vestir a armadura dentro da qual ela já se move com destreza. É asua força que exibe quando enfrenta a câmara, determinada: "Não évergonha, não é morte. É guerra."
Por Público Online a 15 de Novembro 2015

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