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"A minha missão é ajudar os outros"

18 de Maio 2012
Armando Silva faz voluntariado no IPO de Coimbra há 16 anos. A doença da esposa e o sofrimento da perda despertaram em si o desejo de se entregar aos outros. Abandonou a vida que levava, reformou-se e passou a dedicar-se por inteiro ao voluntariado, procurando ajudar os outros enquanto se ajuda a si mesmo.

Por vezes a vida prega-nos partidas que nos fazem mudar de rumo e que nos dão um sentido novo. Foi também isso que aconteceu a Armando Silva, membro da Liga Portuguesa Contra o Cancro e voluntário no Instituto Português de Oncologia de Coimbra há 16 anos.

A doença da esposa, a quem foi diagnosticado um cancro do estômago, levou-o a conhecer uma realidade nova, assim como um sofrimento novo. Acompanhou sempre de perto a sua luta contra a doença, as consultas, os tratamentos, o internamento… Mas no último momento, quando os olhos se fecharam para a vida, não estava lá e foi da pior forma que tomou conhecimento da tão temida notícia. Há hora da visita, quando acompanhado da filha se preparava para ver a esposa, não a encontrou na cama. A surpresa veio acompanhada de muito sofrimento que, como recorda, foi obrigado a conter, assim como foi obrigado a esperar três dias para se poder finalmente despedir da sua companheira de vida.

Naquele momento sentiu que tinha algo para dar aos outros. “Depois de conviver de perto com o sofrimento e com a dor senti necessidade de fazer algo por aqueles que estavam a passar por uma situação semelhante”, conta.

E foi assim que se começou a dedicar ao voluntariado, sendo o voluntário número um da delegação Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro, tendo assumido na altura, há precisamente 16 anos, a responsabilidade por um grupo de 17 pessoas que, tal como ele, sentiam esta necessidade de ajudar os outros.

Hoje são 72 os voluntários que integram esta equipa e que, de forma rotativa, apoiam os doentes e familiares que, vindos de vários pontos do país, chegam ao IPO de Coimbra.

Um legado de amor

Armando Silva tinha 60 anos quando abraçou esta causa. Considera que este é um “legado de amor”, uma entrega a uma causa mas também uma recompensa para si mesmo.

Natural do Porto, veio para Coimbra jovem, já que a família abriu nesta cidade uma empresa de bebidas. Durante 30 anos chefiou uma equipa de mais de 30 funcionários e constituiu a sua família. Orgulha-se dos seus três filhos e dos três netos mas orgulha-se também do trabalho que faz todos os dias, em prol do bem estar dos outros.

“Os meus filhos sabem porque é que me dediquei a este trabalho, sabem o que faço e já vieram pessoalmente ver o que fazemos. Muitas vezes dizem-me que estou sozinho mas eu só estou sozinho à noite e também preciso desse tempo para mim porque levo uma vida muito ativa”, realça.

Armando Silva considera-se uma pessoa “muito emotiva” mas também “muito bem disposta”. Assume que nem sempre é fácil manter “um espírito sempre alegre” mas lembra que “os problemas têm sempre que ficar do lado de fora”.

“Eu digo sempre aos meus colegas que se tivermos um problema o melhor é não virmos. Ao entrarmos nesta casa temos que estar bem dispostos. Os problemas ficam sempre lá fora. Voluntário que não vem para aqui com a disposição de se dedicar a esta casa e de estar sempre bem disposto o melhor é não se dedicar a este trabalho. Nós assumimos um compromisso e temos responsabilidades”, sublinha.

O trabalho do voluntário que atua no IPO de Coimbra passa por orientar o doente quando chega ao hospital, acompanhá-lo, ouvi-lo (se for seu desejo) e tentar animá-lo.

“As pessoas quando vêm pela primeira vez ao IPO vêm muito assustadas e temem pela vida. Depois acabam por chegar à conclusão de que não é bem assim porque, quando a doença é descoberta a tempo, este é um hospital como outro qualquer”, explica.

Mas a “carga emocional” é sempre muito forte nestes doentes. O acompanhamento que recebem quando chegam ao hospital é muito importante. Tão importante que, numa segunda deslocação, é o próprio doente que já procura o voluntário, criando-se mesmo laços de amizade.

Estes laços estendem-se também à família que, muitas vezes, sente necessidade de informar os voluntários da sua perda e de se dedicar também ao voluntariado. “Há muitos familiares a fazer voluntariado. Julgo que quem gosta de fazer voluntariado nesta casa são quase sempre pessoas que passaram por uma situação de doença ou que acompanharam a doença de um familiar”, explica.

Voluntários atuam em cinco pavilhões

Os voluntários, entre 12 e 15 por dia, dos 18 aos 80 anos, atuam em cinco pavilhões – quimioterapia, radioterapia, laboratório de análises e salas de consultas externas do primeiro e segundo piso desta unidade.

Até ao meio dia estão nestes espaços. Deslocam os seus carrinhos com o pequeno almoço para os doentes que vêm para as suas consultas, análises ou exames; acompanham doentes que chegam à receção para os variados serviços; prestam apoio psicológico aos doentes e familiares; brincam com as crianças na sala dos brinquedos enquanto os pais vão às consultas; levam os jornais aos doentes internados… À tarde dedicam-se mais aos doentes que se encontram nos cuidados paliativos, ao hospital de dia, onde fazem os tratamentos.

Armando Silva anda pelos corredores do IPO às segundas, quartas e sextas feiras. Nos dias restantes dedica-se a outros assuntos da LPCC. No hospital praticamente toda a gente o conhece. Diz que a sua missão é “animar e ajudar as pessoas que aqui estão, tentando suavizar as suas preocupações”.

Levanta-se todos os dias às seis da manhã e sente-se realizado com o seu trabalho. Compreende bem o sentimento dos doentes e das suas famílias, assim como as suas limitações. Não pode curar os males dos doentes mas pode levar-lhes alguma alegria.

“Os doentes vêm com uma carga psicológica muito grande. Quando o médico os encaminha para o IPO pensam logo no rótulo de cancro que esta casa tem e ficam assustadíssimos. A minha missão é alegrar as salas de espera, dar-lhes ânimo e boa disposição. Sei bem que não é fácil mas sempre ajuda a esquecerem, nem que seja por momentos, a situação difícil que vivem”, realça.

A realização pessoal

O trabalho que tem desenvolvido nos últimos 16 anos deixa Armando Silva “absolutamente realizado”. Assume que, às vezes, chega ao fim do dia “bastante cansado” mas que se sente feliz por ter ajudado alguém.

“Eu sinto uma necessidade de me entregar aos outros. Quando estamos a fazer um trabalho de que gostamos a nossa vida fica um pouco esquecida lá fora”, realça. Mas não é fácil a sua tarefa. Os laços que se criam entre doente/família e voluntário traduzem-se em muitas alegrias e celebrações mas também, lamentavelmente, em muito sofrimento e perda.

Armando Silva conta que há muitos e muitos momentos que o marcaram ao longo destes 16 anos. Mas destaca um: uma senhora das Beiras que vinha sempre acompanhada de uma amiga e que o procurava sempre. Um dia foi a amiga que o procurou e lhe deu a fatídica notícia. Mas a senhora tinha antecipado o seu desfecho e encarregou a amiga de, no Natal, entregar a este “voluntário especial” uma pequena lembrança, um livro que, de forma simbólica, refletia o trabalho que desenvolve e o significado que representa para os doentes.

Apesar de não querer qualquer tipo de agradecimentos nem trabalhar para isso, admite que estes pequenos gestos o sensibilizam muito, assim como as cartas que recebe dos familiares. Diz que servindo os outros se ajuda a si mesmo e se sente “uma pessoa realizada”.

Aos 76 anos diz que “é idoso mas não é velho”. Aliás, recusa perentoriamente a velhice até porque tem um “espírito muito jovem”. Apesar de lidar diariamente com o sofrimento e de conhecer bem o significado da perda, não teme a morte porque não pensa nela. “Eu costumo dizer que não morro nem que me matem. Vou cá ficar toda a vida e vocês vão ter que me aturar”, brinca.
Por Jornal "O Despertar" a 15 de Novembro 2015

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