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Cancro: afinal, é permitido chorar

03 de Fevereiro 2013




Depois de décadas a ensinar a dizer "cancro", os psico-oncologistas enfrentam outra batalha. Agora contra "a tirania do espírito positivo". As pessoas, dizem, têm de aprender a comunicar emoções.Agora que as pessoas já conseguem pronunciar a palavra cancro, é preciso aprender a dizer medo, amor, raiva, tristeza, angústia e morte. É o que defendem vários especialistas a propósito do lançamento, amanhã, do livroQuebrar o Silêncio, uma compilação de 49 testemunhos de doentes com cancro e de familiares de pessoas que têm ou tiveram a doença. O objectivo é, aos poucos, acabar com aquilo a que os psico-oncologistas chamam a "tirania do pensamento positivo". E mostrar que é permitido chorar.

No sítio da Internet da Liga Portuguesa contra o Cancro (LPCC) estão 220 testemunhos. Destes, 49 passam agora ao papel, em forma de livro, que também poderá ser descarregado online.

Na selecção de textos foi considerada "a necessidade de transmitir uma mensagem positiva", mas não foram censurados relatos de medo, de sentimentos de culpa ou de dor perante a morte de um familiar. Sónia Silva, uma das psicólogas da LPCC envolvidas no projecto, acredita que isso faz parte da "educação para as emoções" e para o fim "da conspiração de silêncio em que participam os doentes e os seus familiares e amigos".

Na página electrónica da liga apela-se à partilha de vivências. Mas quando deixou o seu testemunho, Ana Antunes, de 48 anos, só o fez "para desabafar" - nem pensou se seria ou não validado pela equipa que filtra as reclamações, os pedidos de ajuda ou de informações ou os relatos demasiado crus de tratamentos ou de mortes.

Simplesmente, Ana nunca teve com quem se abrir. E, seis anos depois do diagnóstico do cancro do pulmão que matou o marido, diz que é àquela página que volta quando se sente "a sufocar": "Não dou um testemunho, propriamente - não espero que seja publicado nem aguardo resposta. Alivia-me o simples facto de escrever sobre o que sinto, de saber que alguém lê e que essa pessoa entende o significado e o peso de cada palavra."

Margarida Monge, que há sete anos luta contra o melanoma, o cancro de pele com pior prognóstico, também não escreveu para os outros e também não escreveu tudo. Por exemplo: terminou o seu testemunho dizendo: "O verbo é acreditar." Mas diz que, "na verdade, não se trata de acreditar, mas de querer acreditar". "Se calhar, escrevi mais para mim do que para os outros: porque acreditar é um esforço, uma coisa que quem tira sinais da pele, com urgência, quase de três em três meses, se tem de forçar a fazer todos os dias", explica.

O silêncio como protecção

Na generalidade, confirmam os psicólogos, o cancro é vivido num absoluto silêncio de emoções. "As pessoas agem desta maneira para se protegerem e para protegerem os outros. O doente procura não mostrar que sofre para não fazer sofrer a família; a família mantém um sorriso e assegura que tudo vai correr bem,porque acredita que disso depende a cura; os amigos aconselham esperança e espírito positivo, porque acham que estão a ajudar... Por outro lado, calando, pensam que se protegem da dor. É um círculo vicioso muito difícil de quebrar", diz Sónia Silva, coordenadora da unidade de apoio de psico--oncologia de Coimbra da LPCC.

"Em todo este processo, (...) o mais difícil foi dar a notícia à minha mãe. O meu papel era só um: protegê-la ao máximo (...). Fiz um esforço enorme para nunca chorar ao pé dela", escreveu, nos Testemunhos, Susete, de 27 anos, com um cancro da tiróide. No mesmo espaço da Internet, Ana Paula elogiou a filha "que lutou sempre heroicamente, com um sorriso no rosto", e "nunca desanimou", até ao dia da morte. Hoje, sofre quando pensa na "luta solitária" de Margaret: "Estivemos sempre lado a lado, lutámos juntas, mas cada uma fechada na sua concha, na sua dor."

A psicóloga clínica Cláudia Costa, que trabalha na União Humanitária dos Doentes com Cancro (UHDC) e no Hospital Curry Cabral, confirma: "Na maior parte dos casos, os doentes e o familiar entram no consultório à vez e choram à vez. Cada um fala dos seus medos, da sua dor, da sua angústia. Antes de sair, certifica-se de que não vai com olhos de choro, para que o outro não detecte neles o seu sofrimento."

Um teatro necessário?

Ana Antunes, que acompanhou o marido durante dois anos e oito meses, acredita que esta "espécie de teatro é essencial". "O doente, a família, os amigos, todos agimos como se estivesse tudo bem - não por uma questão de hipocrisia. Numa primeira fase, é porque acreditamos que é disso que depende o êxito do tratamento; depois, quando nos apercebemos de que a morte é inevitável, porque é tarde de mais para voltar atrás. "Fazer de conta" é tudo o que nos resta para aguentarmos até ao fim."

Há quem pense que este controlo das emoções - destrutivo para quem tem cancro e para quem está à volta - é inevitável. Para aderirem aos tratamentos, que em muitos casos transformam o cancro numa doença crónica, os doentes precisam, realmente, de esperança, concordam todos. Saberão as pessoas falar dos medos sem a destruírem?

A psicóloga clínica da UHDC Cláudia Costa teme que não. Pensa que a solução é formar mais especialistas em psico-oncologia e colocá-los junto dos familiares e dos doentes, "para que uns e outros tenham um sítio onde chorar, sabendo que quem os ouve está preparado para lidar com isso". E que, paralelamente, se deve incentivar a criação de grupos de entreajuda, uns de familiares e outros de doentes.

"Está na hora de aprendermos a falar da morte", concorda Jorge Espírito Santo, médico oncologista. Ele próprio sobreviveu a um cancro e diz afligir-se quando pensa que há gente que vive a doença "num silêncio opressivo" e "recorre à escrita num computador porque não tem a quem olhar nos olhos, quando fala dos medos que sente". Sónia Silva acrescenta que não é só dos medos que as pessoas, em geral, não sabem falar: "Quantos conseguem dizer: "Amo-te"? Ou: "Perdoa-me?""

"Houve um tempo em que não se pronunciava a palavra cancro. Quebrámos esse tabu, mas mantém-se outro, relacionado com as emoções geradas pela doença. Calamos e não damos espaço à tristeza, à angústia ou ao medo, como se estes não fossem legítimos", constata Emília Albuquerque, responsável pela Unidade de Psiquiatria do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra.

A especialista cita Jimmie Holland, a primeira pessoa a escrever uma obra sobre psico-oncologia, para criticar a "tirania do espírito positivo". "Impor ao doente e ao familiar do doente espírito positivo, fazê-los acreditar que é disso que depende o êxito do tratamento, pode ser um peso terrível sobre os ombros. O optimismo ajuda, mas ninguém aguenta nunca estar triste, nunca ter medo, nunca sentir revolta ou ansiedade", frisa Emília Albuquerque. "O que não explode implode, provocando estragos maiores e mais difíceis de reparar."

Margarida Monge é uma das pessoas que sofrem com o silêncio. "Quero muito viver, penso em tudo o que quero fazer e sei que estarei ocupada, à vontade, durante uma década", brinca. Acrescenta que, no entanto, a "cansa" pensar que para sobreviver nunca poderá "baixar as armas".

"Terei de lutar sempre e sempre e sempre. Submetendo-me a novas cirurgias, mas também fazendo de conta que tenho forças que muitas vezes me faltam", diz. Não fala disto com o marido, que é quem lhe transmite força, "sempre alegre, sempre positivo". Mas sentir-se-á ele assim, de facto? Não costuma reflectir sobre isso.

Sem receitas

A psiquiatra Emília Albuquerque tem constatado que a impossibilidade de as pessoas comunicarem o que sentem faz com que a família se torne, muitas vezes, "num conjunto de indivíduos aterrorizados e muito sós". Considera importante, por isso, sublinhar e fazer passar a mensagem de "que muitas vezes o equilíbrio emocional do doente depende, precisamente, da possibilidade de partilhar com os que lhe são próximos as sua emoções".

"As pessoas podem chorar juntas e, depois, serenarem e reencontrarem o equilíbrio e o optimismo necessários para percorrerem, também juntas, o seu caminho. Algumas são suficientemente resilientes para o fazerem sozinhas, mas, se não for o caso, podem sempre procurar apoio especializado", lembra.

Como é que se fala dos medos? Emília Albuquerque responde que "não há receitas" e recorda que as famílias transportam uma maneira de comunicar própria, que tem de ser tida em conta. Diz, todavia, que em qualquer caso as pessoas terão de se mostrar disponíveis para falar sobre as emoções que a doença provoca, em vez de reagirem - como é mais comum - em fuga, mudando de assunto ou desviando a atenção do outro sempre que surge uma oportunidade para conversar.

Mafalda Abreu, de 30 anos, com cancro colo-rectal, assegura que nunca teve dificuldades em comunicar com os irmãos, os pais e os amigos. "Choraram comigo, quando souberam [do cancro] e riram comigo, quando terminei os tratamentos", escreveu.

Isabel Leonor, outra das pessoas que assinam testemunhos no livro da LPCC, diz que foi este tipo de referências - "à importância dos afectos, da partilha e de não deixar nada por dizer ou por fazer" - que valorizou, nos textos que leu e releu, na página electrónica daquela organização.

Ela, que ainda agora não consegue dizer "O meu pai morreu", acompanhou-o às consultas, ouviu o médico sugerir-lhe que estava na hora de recorrer aos cuidados paliativos e teve tempo para dizer que gostava muito dele e que o admirava. Afirma que, por terem tido desde sempre uma relação distante, no que respeita à manifestação de sentimentos, não arranjou oportunidade para dar ao pai um abraço. Foi uma das razões pelas quais achou importante escrever: "Nunca deixem para amanhã o que dizer e o que fazer com as pessoas que mais amam." Acredita que o seu testemunho ajudará outros a chegarem mais longe - a dar o abraço que ela não deu.

"Há sede de orientações"

São casos como o de Isabel Leonor que fazem com que a psicóloga da LPCC acredite no poder dos testemunhos. "A nossa página no Facebook tem mais de 500 mil seguidores e sempre que publicamos um testemunho há um pico de acessos ao site. As pessoas estão sequiosas de informação científica, mas também de orientações sobre como agir e lidar com a doença, com a família, com os amigos", afirma.

Emília Albuquerque, que para além de trabalhar no IPO preside ao conselho científico da Academia Portuguesa de Psico-Oncologia, diz que, de alguma forma, a tarefa de ensinar a comunicar se iniciou também com os cursos intensivos dirigidos a profissionais de saúde, que se têm multiplicado, nos últimos anos. Muitos médicos, por exemplo, ainda estão a aprender como comunicar a possibilidade da doença, a confirmação do diagnóstico, as opções, o sucesso e, principalmente, o insucesso dos tratamentos.

Ana Paula diz que nunca tinha pensado nisso até ao dia em que ouviu o médico dizer ao seu pai: "Quando aqui chegou, tive de me concentrar na doença. A partir de agora, vou pensar no doente." A reacção foi: "Quanto tenho de vida?" E a resposta: "Quem luta fica cá mais tempo." "Nunca foi pronunciada a palavra morte", constata agora Ana Paula. Nem por ela própria. Esta conversa com o médico foi no dia 19 de Maio; no fim de Junho, escreveu, o seu pai "partiu".
Por Público a 15 de Novembro 2015

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