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Há doentes com cancro a deixar de se tratar por dificuldades económicas

13 de Abril 2012
Carlos Oliveira, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), confirma que uma parte dos 2,6 milhões de euros gastos em 2011 na "humanização do apoio ao doente" foram aplicados no pagamento de transporte. Ambos se dizem preocupados. O primeiro pede razoabilidade e bom senso na aplicação das leis; o segundo solicita apoio, em dinheiro, à população.
Há cerca de meio ano, quando foi internado em Coimbra para mais uma sessão de quimioterapia, Luís Cardona, de 46 anos, residente na Covilhã, descobriu que não teria como regressar a casa. Depois do tratamento, que por ser especialmente agressivo o obrigava a dormir no Instituto Português de Oncologia (IPO), a médica disse-lhe: "Não sei como é que amanhã vai para casa... Infelizmente, não podemos arranjar transporte".
Luís tem dificuldade em expressar o que sentiu. Estava na fase em que tinha muito medo (diz que o medo "era muito maior antes da cirurgia"); antevia o mal-estar que em breve o ia derrubar; não conhecia uma única pessoa em Coimbra; estava a 200 quilómetros de casa; e tinha dez euros no bolso.
Disse à médica: "Aqui é que não fico". Mas "foi da boca para fora". Não sabia o que fazer: faltou-lhe o ar, tal a sensação de abandono. Passou assim uma noite. Depois, teve "sorte". Dos serviços de acção social do IPO, mandaram-no para o gabinete da LPCC. A assistente social acalmou-o. Dar-lhe-ia dinheiro para o autocarro e quando regressasse para novo tratamento, deveria trazer prova dos rendimentos e ela daria o suficiente para outra viagem de ida e volta. Isso significava quatro horas para lá e quatro horas para cá, o dobro do que demorava de ambulância. Luís, finalmente, inspirou: "Foi como se em vez de dinheiro ela me tivesse dado um balão de oxigénio".
O que é que aconteceu entre a última requisição de transporte em ambulância e aquela tarde? Os arquivos não indicam qualquer alteração legislativa naquela altura. E pode até não ter acontecido nada de significativo, diz o presidente do Colégio de Oncologia. "Não tenho conhecimento de que, em qualquer instituição, tenha sido dada uma ordem directa para restringir as requisições de transporte. O que sei, oficiosamente, é que de mês para mês se tem adensado a pressão no sentido de as limitar ao mínimo indispensável; e também que as regras variam consoante o estabelecimento, as mudanças das administrações e as épocas do ano", diz Jorge Espírito Santo.
A legislação em vigor, do fim de 2010, limitou o pagamento de deslocações à insuficiência económica ou incapacidade física por motivos clínicos. A queda de requisições, na altura, provocou uma onda de indignação entre corporações de bombeiros. De então para cá, a confusão sobre quem tem direito a quê e em que circunstâncias só se agravou.
Crise não justifica tudo

A regulamentação do diploma, em Maio, não clarificou a situação, a alteração feita no final de 2011 introduziu mais ruído e o resultado dos avanços e recuos nas recentes negociações entre Governo e bombeiros ainda não tomou forma de lei. "Quando isso acontecer, continuará a não bastar", diz Jorge Espírito Santo, que pede "bom senso, razoabilidade e cuidado na análise de cada caso", porque "nenhuma crise justifica que certos limites sejam ultrapassados".
"Será difícil entender que a crise, que tem deixado tanta gente em situações tão graves, tem reflexos ainda mais sérios na vida de um doente com cancro? Que esta é uma doença que debilita toda a família? Que é ela própria causa de desemprego e de dificuldade em arranjar emprego? Que muitas vezes alguém tem de se despedir [do emprego] para apoiar o familiar doente?", pergunta o presidente da LPCC.
Por Público a 15 de Novembro 2015

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