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Rastreios oncológicos retomados dois meses e meio depois

01 de Julho 2020
Retoma está a ser feita de forma gradual e cumprindo regras de segurança, garantem as ARS. Liga contra o Cancro estima que haverá 200 diagnósticos de cancro da mama atrasados.

Foram suspensos entre 13 e 16 de Março, altura em que o Governo decretou a paragem da actividade não urgente, para que os serviços de saúde respondessem à pandemia. Dois meses e meio depois, os rastreios oncológicos — mama, colo do útero e colorrectal — estão a ser retomados de forma gradual e cumprindo todas as regras de segurança, garantem as administrações regionais de Saúde (ARS), que referem que os casos positivos continuaram a ser acompanhados nos hospitais.

Na ARS de Lisboa e Vale do Tejo, a “retoma gradual” começou no início do mês. A entidade explica que está a trabalhar “em estreita colaboração” com os centros de saúde e hospitais, “de forma a criar condições que permitam mitigar o impacto da covid-19 na prestação de cuidados de rastreio oncológico”. Estão a ser “melhorados os períodos de agendamento”, os circuitos com “esclarecimento prévio dos procedimentos administrativos e do encaminhamento a realizar” e a ser salvaguardadas as “medidas de protecção individual e de desinfecção dos espaços e equipamentos”.

O impacto da suspensão, diz a ARS, “poderá apenas ser aferido no final do ano” e de fora ficaram todas as situações mais graves, “nomeadamente o acompanhamento dos casos positivos”, que continuou a realizar-se. Em anos anteriores, as taxas de adesão aos rastreios rondaram os 80% no caso do colo do útero, os 60% na mama e os 50% no do colorrectal. A tendência mantinhase no início do ano, mas “diminuiu progressivamente até 16 de Março, podendo espelhar um receio da população na ida aos serviços de saúde.”

Na ARS Centro, os primeiros três meses do ano estavam a ser positivos: mais utentes convocados a apresentarem-se para fazer os rastreios do cancro do colo do útero e do colorrectal, em comparação com o mesmo período de 2019. De 1 a 15 de Março, por exemplo, foram rastreadas 1897 pessoas ao cancro colorrectal, quando no mesmo período de 2019 tinham sido 602. Não foram enviados dados do rastreio do cancro da mama. Entre 20% a 30% dos utentes faltam aos rastreios e “os motivos são variados”, explica a ARS, referindo que durante a suspensão alguns hospitais realizaram consultas de patologia cervical às utentes de maior risco. Em 2019, na sequência do rastreio do cancro do colo do útero foram referenciadas para os hospitais cerca de 3000 mulheres com HPV de alto risco ou citologia alterada, 175 do rastreio do cancro da mama e 1614 utentes com teste positivo no rastreio do cólon e recto, dos quais 320 apresentavam alterações na colonoscopia.

Monitorizar efeitos
A retoma do rastreio do cancro da mama começou no dia 1 deste mês. Também “os rastreios do cancro do colo do útero e do cólon e recto irão avançar já na maior parte dos agrupamentos de centros de saúde”, explica a ARS Centro, que fará “um esforço de recuperação até ao final do ano” para diluir o potencial impacto da suspensão. Pro fissionais e utentes têm de seguir as medidas de segurança estabelecidas para as consultas nos centros de saúde e nos hospitais.

Também na ARS Norte “a retoma da actividade será feita de forma gradual a partir de Junho”, cumprindo as normas de segurança de definidas pela Direcção-Geral da Saúde. “As pessoas que tinham rastreio agendado para este período de confinamento vão ser chamadas para a realização do rastreio durante os próximos quatro meses”, explica, adiantando que o possível impacto da suspensão está a ser “monitorizado e devidamente acompanhado pelas diferentes equipas e instituições da região”. Entre 1 de Janeiro e 30 de Abril deste ano foram convidadas a participar nos três rastreios 164.052 pessoas e foram rastreadas 95.465, menos 26% e menos 23% do que no mesmo período de 2019, respectivamente. “Os motivos de ausência estão relacionados com a evolução da situação epidemiológica da covid-19”, diz a ARS Norte, já que desde 16 de Março os rastreios foram suspensos. Em 2019, por mês, em média, foram referenciadas 550 mulheres para uma consulta de patologia cervical, 128 para uma consulta de patologia mamária e 115 pessoas para colonoscopia.

A ARS Algarve também retomou este mês as convocatórias para os rastreios do cancro da mama, cólon e recto e colo do útero, de acordo com as orientações da DGS. Equipamentos de protecção individual, distanciamento social, desinfecção de espaços, maior intervalo entre atendimento de utentes são alguns dos exemplos. Estão também a fazer contactos telefónicos para gerir melhor a resposta e a e efciência dos rastreios. “Actualmente, a realização de exames complementares e consultas hospitalares decorrentes de casos positivos encontra-se em actividade normal”, diz a ARS, acrescentando que “as consultas hospitalares de patologia do colo e de senologia para os casos positivos foram sempre mantidas” e que as colonoscopias de rastreio recomeçaram em Maio.
A suspensão é visível nos números dos três rastreios — por exemplo, no do cancro da mama em Abril não houve convocatórias nem mulheres rastreadas, quando em Abril do ano passado tinham sido convocadas 1963 e rastreadas 1175. Neste rastreio, os principais motivos de ausência nos primeiros meses de 2020 foram morada desactualizada (40%), mamografia recente (36%) e 4% por reprogramação para outra data devido à covid a pedido da utente. “Uma vez que os rastreios de base populacional se destinam a populações saudáveis, de modo a detectar precocemente lesões pré-malignas e com grande intervalo de tempo entre as lesões precursoras de cancro e o aparecimento de cancro, espera-se um impacto reduzido provocado pela suspensão temporária dos programas, na região”, refere a ARS Algarve.

A ARS Alentejo diz apenas que os rastreios do cancro da mama e do cancro do colo do útero foram “retomados no início de Junho, com o decorrer da retoma gradual da actividade prevista para as unidades de saúde”. Remeteu outras questões para a DGS e para a Coordenação Nacional do Programa para as Doenças Oncológicas.

Diagnósticos atrasados
O presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro (LPCC), entidade responsável pelo rastreio do cancro da mama em grande parte do país, diz que “a retoma está a ser feita”. “As consultas de aferição já foram retomadas. Das mulheres que foram rastreadas até 15 de Março e que precisavam de consulta de aferição, quase todas já foram aferidas”, refere Vítor Rodrigues, explicando que durante a suspensão os casos de maior suspeita de cancro foram enviados para os hospitais. O arranque “não vai começar no imediato a 100%”. “Queremos testar com segurança para as pessoas e para os profissionais. Começamos com 50%, umas semanas depois passamos para 75% e depois os 100%.
Também não sabemos como vai ser a reacção das utentes. Vamos fazer as convocatórias por telefone para explicar e tirar todas as dúvidas”, explica o presidente da LPCC. É também uma forma de garantir a maximização do rastreio, limitando as ausências. Vítor Rodrigues estima, tendo por base números do ano passado, que haverá “cerca de 200 diagnósticos de cancro da mama atrasados” devido à suspensão do rastreio, mas que “vão ser recuperados nas próximas semanas”. “Os rastreios são fundamentais em termos de diagnóstico precoce. Mas não é só rastrear. É preciso ter vias abertas para responder às lesões diagnosticadas e qualidade de tratamento. Nos últimos três a quatro meses houve algum sufoco operacional e os serviços de saúde estão extenuados física e emocionalmente. São factores com os quais temos de aprender a lidar de forma estruturada. A recuperação tem de ser planeada. Pelo que conheço, a maior parte dos hospitais começou a retoma e tem havido uma grande tentativa de início da recuperação.” A tarefa mais difícil será a cirurgia, que já antes tinha lista de espera.
 
Por Ana Maia a 01 de Julho 2020

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