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Ser voluntário é a felicidade de servir os outros sem esperar nada em troca

16 de Dezembro 2013
Aos 78 anos e voluntário há 17, Armando Silva sorri à vida e partilha esse sorriso com quem precisa. Optimista por natureza, começou a sentir a necessidade de se dedicar aos outros e em boa hora o fez pois graças a ele e à equipa que coordena são muitos os doentes oncológicos que sentem o verdadeiro significado do calor humano e da solidariedade.
Texto: Cláudia Pinto
Após algum tempo a acompanhar a sua mulher, que sofria de cancro, em consultas de oncologia, Armando Silva, coordenador do voluntariado no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra (Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro - LPCC), entendeu que faltava dotar as salas do IPO com uma componente mais humana. "Era necessário humanizar estes locais", diz-nos. Foi então convidado pela LPCC para fazer uma formação juntamente com mais 17 pessoas. Estava dado o primeiro passo para que o voluntariado passasse a fazer parte dos seus dias. Hoje em dia, são 83 os voluntários que frequentam o IPO de Coimbra, de 2ª a 6ª feira, para apoiar os doentes. "Actualmente, o IPO está repleto de doentes e há pessoas que são acompanhadas há vários anos, o que significa que vivem muito mais tempo devido ao diagnóstico precoce e aos tratamentos que fazem", acrescenta.
A sua filosofia de voluntariado é sorrir e estar sempre bem-disposto. "Um doente positivo e que sorria está a contribuir bastante para a cura da sua doença", defende. Armando Silva está no IPO de Coimbra nas manhãs de 2ª,4ª e 6ªs feiras mas sempre que algum familiar de um doente com quem tenha maior relacionamento lhe pede para o visitar em determinado horário (e já aconteceu fazerem-lhe esse pedido durante a noite), acede e não deixa ninguém desamparado.
Os voluntários têm uma escala definida dividida por vários locais e serviços. "Temos a cafetaria onde oferecemos leite, café, chá, bolachas nas salas de espera ou também no laboratório de análises para que os doentes tenham a possibilidade de comer alguma coisa quando saem pois têm medo de ir a um café perto e não ouvirem a chamada para a consulta", adianta Armando Silva. Existe também uma equipa de guias que acompanha os doentes aos vários serviços, aos locais de realização de exames e que aproveitam para conversar um pouco com os voluntários. "Muitas vezes, um voluntário é o primeiro rosto de um hospital. Os doentes chegam de táxi ou de ambulância e a primeira pessoa que vêem é o voluntário que os encaminha devidamente."
Dar e receber
No passado dia 5 de Dezembro comemorou-se o Dia Internacional do Voluntariado. Armando Silva dá importância à efeméride. "Julgo que é fundamental haver este dia para que a população se aperceba que há muitos voluntários que se dedicam a inúmeras causas e que cada um de nós pode fazer imenso pelo seu semelhante", sublinha Armando Silva.Mesmo quando o cansaço aperta, sente-se plenamente realizado. Da parte da tarde também dá uma ajuda numa creche o que faz com que o voluntariado seja a grande missão dos seus dias desde que ficou viúvo e também devido ao facto de se ter aposentado ainda novo. "Admiro-me como é que há pessoas que passam os dias a não fazer nada. Hoje sou eu que estou a ajudar mas amanhã posso necessitar de ser ajudado. Há muita gente aposentada e desempregada hoje em dia. Julgo que deveriam fazer voluntariado, seja no IPO ou noutras instituições, como por exemplo, nos lares de terceira idade de forma a darem um novo sentido às suas vidas", recomenda.
Apesar de ficar ligado a alguns doentes e de sofrer com a perda daqueles que infelizmente não resistem à doença, aprendeu com o tempo a "nunca mostrar uma cara triste ou a pronunciar uma palavra negativa". Considera que o sorriso e os pensamentos positivos atraem coisas boas. E é com esta postura que frequenta os cuidados paliativos onde estão internados doentes em situação mais grave.Vive preocupado com o aparecimento silencioso do cancro e alerta os leitores. "O cancro não bate à porta e muitas vezes não dá sintomas pelo que é essencial estar atento e fazer os rastreios específicos para determinada fase da vida".Considera que "ser voluntário é a felicidade de servir os outros sem esperar nada em troca" e confessa-nos que é isto que tenta fazer diariamente. Aconselha todos aqueles que gostassem de se dedicar ao voluntariado a comprometerem-se e ter a noção de que a responsabilidade é para ser cumprida. "A partir do momento em que aceitam o desafio têm de estar presentes nos dias em que tal é suposto e não apenas quando estão bem-dispostos ou quando lhes dá jeito", explica.
Armando Silva está tão envolvido nas causas em que defende que confessa que se dedicará sempre ao voluntariado enquanto sentir capacidade para o fazer. "Recebo muito mais do que dou no voluntariado. Sou muito acarinhado pelas pessoas que chegam a vir falar comigo e a dizer que não me viram em determinado dia e que sentiram a minha falta", conclui.
 50 anos a ajudar os outros
Em 2013 comemora-se a nível nacional 50 anos de voluntariado em oncologia da LPCC: e, ao longo destas cinco décadas, é incontável o número de pessoas que, directa ou indirectamente, já contactaram com um voluntário da LPCC, quer em contexto hospitalar, quer na comunidade ou no âmbito da participação num movimento de entreajuda.Os voluntários da LPCC são o rosto da humanização em oncologia; têm um papel fundamental na referenciação de doentes oncológicos carenciados com vista à possível atribuição de apoio social; promovem e desenvolvem iniciativas de sensibilização para a educação para a saúde e prevenção da doença e têm uma colaboração activa na angariação de fundos. Conheça o trabalho desenvolvido pela LPCC e inscreva-se como voluntário em www.ligacontracancro.pt"Muitas vezes, um voluntário é o primeiro rosto de um hospital""Recebo muito mais do que dou no voluntariado"
Por Desafio Saúde a 15 de Novembro 2015

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