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Um escaldão hoje... mil novos melanomas por ano em Portugal

25 de Julho 2010
Aos primeiros raios de sol a vontade de correr para a praia é mais que muita. Estende-se rapidamente a toalha e aproveita-se, hora após hora, aquele calor que se entranha na pele e que parece aquecer até os ossos. Não se sabe até quando dura o bom tempo. O melhor é, por isso, torrar e aproveitar os banhos de mar o dia todo, para ficar rapidamente com um bom bronze ou aquele tom de lagosta que não engana ninguém.

Caso se reveja neste cenário, saiba que acabou de dar uma excelente ajuda ao cancro da pele - uma das patologias oncológicas que mais aumenta e foi um dos principais temas debatidos no congresso da Associação Americana de Oncologia Clínica, que decorreu recentemente em Chicago. Em Portugal, há 10 mil novos casos por ano. São quase 30 portugueses por dia a receber este diagnóstico.

Existem três tipos principais de cancro da pele, que representam 97 por cento do total: o carcinoma baso-celular (também conhecido como basalioma e que corresponde a 67 por cento dos casos), o carcinoma espino-celular (20 por cento) e o melanoma (dez por cento). João Abel Amaro, da direcção da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, explica ao PÚBLICO que o primeiro "é um tumor de crescimento lento e baixa malignidade, pelo que nunca dá metástases à distância".

O segundo tipo tem "malignidade intermédia e potencial metastizante". Já "o melanoma é altamente maligno, com grande tendência para originar metástases noutros órgãos". A boa notícia: há cada vez mais estudos de substâncias especialmente eficazes nos casos avançados de melanoma.

Isto porque o melanoma, apesar de ser o tipo menos frequente, é o responsável por mais de 90 por cento das mortes por cancro da pele e o mais comum na vida urbana, com poucas mas intensas incursões à praia. "A exposição solar prolongada favorece o desenvolvimento do carcinoma baso-celular e espino-celular, como nos trabalhadores ao ar livre (pescadores, agricultores, construção civil)", esclarece Osvaldo Correia, secretário-geral da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo.

O também professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto alerta, contudo, que "as queimaduras solares e a existência de múltiplos nevos [sinais] atípicos estão estatisticamente associadas a um maior risco de melanoma, que é o caso daqueles que se expõem ocasional, mas intensamente, ao sol, como os que fazem férias curtas mas intensas e repetidas ao longo do ano".

"Não nos podemos esquecer que tudo o que fazemos fica gravado na pele. É importante que as pessoas fiquem atentas às mudanças nos seus sinais e ao aparecimento de novos porque o diagnóstico atempado é determinante. Não queremos tratar melanomas metastizados, queremos sim removê-los numa fase inicial", diz Martinha Henrique, directora do serviço de Dermatologia do Hospital de Santo André, em Leiria. Mas o sol não é o único factor envolvido no processo.

"No caso do melanoma essa relação não é tão linear, desempenhando um papel importante os factores genéticos", esclarece João Abel Amaro, que foi director do Serviço de Dermatologia do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO).

Genes e sol

Genética e sol de mãos dadas levaram a que, nos últimos dez anos, a incidência do melanoma em Portugal tivesse duplicado: passou de cinco casos para dez casos por 100 mil habitantes - uma estatística dentro da média mundial. António Ventura, 63 anos e gerente comercial reformado, soube no final de 2008 que era um dos 1000 portugueses que todos os anos entram nos números do melanoma.

"Sentia-me a perder forças de dia para dia e disse à médica de família que sentia uma impressão no estômago pelo que me pediu uma endoscopia e análises." Estava com uma grande anemia. Foi no hospital de Abrantes que se delineou o primeiro diagnóstico: um tumor no estômago. Maligno. Espalhado já para o fígado, ossos, pulmões..."

Não foi um caso comum. "Pensavam que era um outro tipo de cancro, um sarcoma. Eu aparentemente não tinha nenhum sinal na pele, mas a verdade é que tinha um melanoma já no estômago", explica Ventura.

De Abrantes foi encaminhado para o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, onde está a ser acompanhado. Removeu o estômago por completo e parte do fígado.

Para as restantes metástases seguiram-se longas sessões de quimioterapia que terminou há um ano e conseguiram travar a progressão da doença. Quanto olha para trás, António acredita que o seu caso está mais do lado da genética. Mas não coloca de parte a ajuda que 17 anos a viver em África - "com muita praia e sempre com 40º de temperatura" - possam ter dado. Além disso, é loiro e tem pele clara.

Recorda também "borbulhas estranhas" que apareciam na cabeça e o levaram a vários dermatologistas. Como desapareciam, eram conotadas com "alergia ao sol". Do seu lado, decidiu lutar e diz "que uma boa dose de optimismo e de fé" têm ajudado muito a ultrapassar a situação.

Solução imunitária?

É para estes casos mais complicados que as investigações se têm voltado. Uma nova terapia apresentada em Chicago e cujo estudo foi publicado em Junho no New England Journal of Medicine conseguiu aumentar em pelo menos 40 por cento os meses de vida dos doentes em fases mais avançadas da doença.

A substância, o ipilimumab, é um anticorpo monoclonal que estimula o sistema imunitário através de uma proteína que se encontra nas células T. Ao impedir que a proteína fique bloqueada impede o alastramento do cancro. No fundo, coloca o corpo a atacar a doença, o que reduz os efeitos secundários de tratamentos como a quimioterapia.

O medicamento só deverá sair em 2011, mas, no ensaio que serviu de base a este estudo, entrou um doente do IPO de Lisboa, seguido por Maria José Passos, assistente graduada de Oncologia Médica desta unidade de saúde. A médica acompanha também o caso de António, que começará também em breve a receber injecções de ipilimumab. No ensaio, dois anos após o início do tratamento, 24 por cento dos 676 doentes tratados com o anticorpo ainda estavam vivos. No grupo que não tomou esta molécula a percentagem ficou-se nos 14 por cento. Para Maria José Passos "ainda há muito caminho para desbravar no campo imunogenético", mas esta substância será "muito importante no aumento da sobrevida".

"É uma forma de imunoterapia experimental, um tratamento selectivo que amplifica a resposta do sistema imunitário contra um alvo específico, as células do melanoma, com menos danos colaterais. Por enquanto não se pode falar em cura, mas em controlo da doença, transformando-a numa doença crónica, não a deixando progredir", diz João Abel Amaro.

A opinião é corroborada por um dos investigadores do ipilimumab, Axel Hauschild, da Universidade de Kiel, na Alemanha. À margem do congresso da Associação Americana de Oncologia Clínica, Hauschild diz ao PÚBLICO que acredita que "no futuro vamos ter terapias mais orientadas e combinadas". Apesar de ser "cedo para usar a palavra cura", o especialista assegura que há "já respostas de longo prazo" e que "não teremos de esperar 20 anos" - o prazo de que se falava sempre em oncologia. Ainda assim, recordou que "creme e roupas" continuam a ser a melhor aposta", a par com a detecção precoce.

Também em Chicago, Alexandre Eggermont, da Universidade Erasmus (Holanda), que teve igualmente doentes seus no estudo, destacou que esta terapia "é uma nova forma de manipular o sistema imunitário para obter uma resposta, importante no caso do melanoma metastizado".

Eggermont acrescentou: "É o início de uma resposta imunitária prolongada que até agora não conseguíamos induzir. Acredito que haja doentes que se podem curar com estes tratamentos. Noutros casos funcionará em combinação com terapias tradicionais, mas o sistema imunitário será muito importante no combate a este e outros cancros."
Por Público Online a 15 de Novembro 2015

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