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"Uma em cada três pessoas irá ter cancro ao longo da vida" - Entrevista a Manuel Sobrinho Simões

20 de Outubro 2016
Eleito em 2015, pela revista britânica 'The Patologist', como o patologista mais influente do mundo, Sobrinho Simões recebeu ao longo da sua carreira diversos prémios nacionais e internacionais. 

Qual é o retrato actual das doenças oncológicas em Portugal? E igual ao que se passa na Europa parecida connosco, ou seja, o que se passa em Espanha, França e Itália. Temos praticamente os mesmos cancros que esses países. 
Não há diferenças entre Portugal e esses países, a não ser que nós ainda temos um pouco mais de cancro do estômago. O pior, para mim, é que os nossos casos ainda são tratados mais tardiamente do que se passa em França, Espanha ou Itália. Isto é: temos menos casos diagnosticados precocemente. Temos mais casos avançados do que esses países. 
E isso deve-se a quê? Porque somos maus na prevenção e nos rastreios. O português gosta de resolver catástrofes. O português não gosta de prevenir catástrofes. 
Aliás, veja-se o que se passa com os fogos e as inundações. Gostamos de uma boa catástrofe. Aí, somos generosos e tal... 
Numa entrevista, que deu há uns meses, dizia que 'o cancro é a prova de que estamos a viver tempo demais'. 
Está-nos a acontecer uma coisa que é muito má. Estamos a viver muito mais - o que é bom, apesar de não estarmos a viver com muita qualidade. Mas ao aumentarmos a longevidade, aumenta muito o risco de cancro. Porque os velhinhos deixam de ter capacidade de reparação dos erros. E depois estamos a ficar muito gordos e diabéticos. Se juntar gordos, diabéticos e viver demais, isto é a tempestade perfeita Significa que a tendência é para o número de cancros ir crescendo? É claro, não tenha dúvidas. Nesta altura em Portugal, uma em cada três pessoas irá desenvolver um cancro ao longo da vida. Daqui a 10 ou 15 anos, um em cada dois portugueses, tanto madeirenses como continentais, vai ter um cancro ao longo da vida Mas têm-se promovido alguns rastreios... Somos maus! É preciso organização e planificação. 
Ainda são poucos? São poucos, as pessoas não respondem bem e não há quem pague. As pessoas estão dispostas a pagar para serem curadas, mas não para se prevenir. Por isso é que também somos maus nos seguros. 
Qual é a pergunta sobre o cancro para o qual ainda não temos resposta? A pergunta é esta: porque é que há diferenças tão grandes de cancro para cancro? Porque é que hoje já tratamos tão bem o cancro da mama, o cancro da tiróide, da próstata, do cólon, do intestino, mas não conseguimos tratar tão bem o cancro do pulmão, do pâncreas, do sistema nervoso central, do fígado, do estômago? Essa é a grande pergunta, porque eles parecem parecidos. 
E sabe a resposta? Não. Melhoramos tanto que hoje em dia curamos 95% dos cancros da tiróide, mas porque raio só conseguimos curar 5% dos cancros do pâncreas? Qual o futuro? O futuro vai ser desenvolver terapêuticas em vez de tratar os cancros todos como um todo, é desenvolver aproximações que dêem especificidade a cada tipo de cancro. 
Para responder a essas questões, não é necessário um maior investimento na Ciência?E! E como está a Ciência em Portugal? Está razoável. 
Com pouco investimento? Não. 
Quer dizer, piorou nos últimos quatro anos, mas a Ciência apesar de tudo nunca gastou muito e melhorou imenso nos últimos 20 anos. Estou mais preocupado com a Saúde e a Educação do que com a Ciência Existem médicos suficientes em Portugal? Temos mais do que suficientes, estão é mal distribuídos. Estão mal distribuídos e há muitos actos médicos que deviam ser feitos por técnicos. Há muitas coisas que os enfermeiros fazem muito melhor do que os médicos. Seguir grávidas, seguir hipertensos, por exemplo. O que devíamos diminuir era o consumo de médicos em coisas que eles não são tão bons como outros profissionais e devíamos estimular uma distribuição mais simétrica dos médicos pelo território. 
Mas estão bem divididos entre o Sistema Nacional de Saúde e o privado? Aí, não nós podemos meter porque são as leis do mercado. 
Por exemplo, sou do público e acho indecente que o público não invista mais, mas isso é uma decisão estatal. 
Os medicamentos para os doentes oncológicos estão acessíveis aos pacientes? O acesso não está bom, mas não está bom em parte nenhuma da Europa. 
Qual é o maior problema? É o custo. 
Aí, é que eu achava que a União Europeia devia ter uma posição. Acho indecente que cada país tenha de lidar com os seus problemas e era aí que eu esperava que a Comissão Europeia funcionasse e tivesse capacidade negocial para impor à industria farmacêutica um negócio em que eles ganhassem, mas que não explorassem os desgraçados dos doentes. 
Preços muito elevados de medicação? Exactamente. O acesso não é difícil se tiver dinheiro. O que acho é que a Europa podia ter uma política com partilha de risco, isto é, só pagar os medicamentos que tivessem efeitos positivos e não pagariam quando não tinham. Isto não pode ser negociado apenas com um país, ainda por cima um país pequeno. Temos que ir para negociações a nível europeu porque tem de ser feito algo diferente. 
Portanto, a prevenção é o caminho? É, não tenha dúvida. Prevenção e educação. 
"UMA EM, CADA TRES PESSOAS IRA TER CANCRO AO LONGO DA VIDA" A previsão é do médico e investigador, Manuel Sobrinho Simões.
 
Por Patrícia Gouveia a 20 de Outubro 2016

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