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20 ANOS DE VOLUNTARIADO HOSPITALAR ● ENTREVISTA

29 de Dezembro 2016
 20 ANOS DE VOLUNTARIADO HOSPITALAR ● ENTREVISTA
“NASCI PARA SER VOLUNTÁRIO”
Inspirador do ideal da humanização nos cuidados de saúde, Armando Silva é o primeiro dos voluntários hospitalares na região centro. O seu sorriso legenda 20 anos de dedicação, solidariedade e incondicionalismos. É a força desse mesmo sorriso que marca a história de muitas vidas viradas do avesso e tocadas pelos voluntários da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Nos seus 81 anos firmados por uma entrega ímpar, folheamos nesta conversa as afabilidades, compromissos e convergências de duas décadas de voluntariado.

Entrevista com Armando Silva (Coordenador do Voluntariado Hospitalar no IPOC/ Vogal da Direção do Núcleo Regional do Centro), integrada na quarta edição da newsletter O Que Nos Liga - Voluntariado em Oncologia, do Núcleo Regional do Centro.


Que motivações o ligam ao voluntariado hospitalar?
AS: As motivações foram muitas, mas diria que algumas situações pessoais mais difíceis ligaram-me ao voluntariado.  A minha esposa teve cancro e enquanto eu corria para os hospitais com ela, também me apercebia que faltava qualquer coisa a nível humano. Eu sei que os médicos se focam efetivamente na doença e nós os voluntários temos necessidade de dar mais alguma coisa, mais atenção. E temos todos o tempo do mundo para estar junto do doente.
Que papel ainda hoje o voluntariado desempenha na sua vida? 
AS: Desempenha tudo. Já não sei viver sem voluntariado.  Esta é a minha profissão. Eu costumo dizer que julgo que já nasci para ser voluntário. A minha rotina começa todos os dias, sem exceção bastante cedo, às 7 da manhã, no átrio principal do Instituo Português de Oncologia de Coimbra (IPOC).  É uma rotina a que me habituei, e que hoje é compromisso inadiável.
Porquê que é tão importante iniciar a sua rotina tão cedo no IPOC?
AS: Porque os doentes que chegam pela primeira vez ao IPOC precisam do nosso encaminhamento. Eles chegam e não sabem como se devem orientar dentro do hospital. Não sabem onde se devem dirigir, não sabem que têm que tirar senhas de espera, que têm que passar pelo serviço social do IPOC... O papel do voluntário é acolhê-los e encaminhá-los corretamente. Também temos os doentes dependentes que precisam, sobretudo, de ajuda dos nossos guias para a deslocação, para a sua admissão, para garantirmos a sua prioridade na chamada para os exames, etc.
Na copa da Liga Portuguesa Contra o Cancro no IPOC, o trabalho é diferente, preparam-se os “carrinhos”. Porquê que este é um momento tão importante?
AS: Preparar a alimentação para os utentes é uma grande preocupação no nosso dia a dia. Muitos vêm em jejum para o hospital, ou porque têm que fazer análises, ou porque vêm de muito longe e tomaram o pequeno almoço muito cedo. E outros, ainda, que já se habituaram ao nosso pequeno almoço. Nós ouvimos dizer frequentemente que “Soube-me tão bem o vosso cafezinho com leite ou o vosso pão com manteiga. De que marca é que é?”.  A grande diferença é que nós, os voluntários, pomos todo o nosso amor na confeção desses alimentos, porque sabemos o quanto irão beneficiar o doente.  
Um dos instrumentos mais relevantes para a Liga é o termo Compromisso. Porquê?
AS: O termo compromisso é fundamental no voluntariado. O doente habitua-se à presença dos voluntários com quem vai interagindo. Se deixa de nos ver, por qualquer razão, pergunta imediatamente por nós. Ou seja, o utente habituou-se à nossa presença nas cinco salas de espera do IPOC e tem necessidade de partilhar connosco as suas histórias, as suas melhorias…
Para um doente é relevante sentir que tem alguém ali que está ao seu dispor. E os voluntários colocam-se ao seu serviço. Saber que quando regressam, ao fim de algum tempo, nos vão encontrar, que têm ali um amigo completamente disponível, é muito importante. E o tempo para nós pára completamente nessa altura.
Lembro-me que, numa visita a um doente da Unidade de Cuidados Paliativos, fui abordado pela sua esposa, perguntando-me se às 21h00 dessa noite poderia estar no IPO para festejar o seu aniversário. “Talvez o último”, afirmava devido ao seu estado de saúde.   “Minha senhora”, disse-lhe eu, “essa hora será reservada para o seu marido”. Ajudei-o a festejar dizendo que no próximo ano gostaria de festejar o aniversário em sua casa. Ele sorriu e passado dois ou três dias partiu. Fiquei com a minha consciência tranquila, porque fiz algo junto desse doente. É isso que me move: humanizar e transmitir amor àqueles que por mim passam.
Quando fazemos um voluntariado bem feito, com todas as regras que nos ensinaram, nós voluntários tornamo-nos os profissionais da humanização.
Que benefícios se podem adquirir com a prática do voluntariado?
AS: O sentimento de dever cumprido é o maior benefício. Nós damos e acabamos por nos aperceber que recebemos muito mais do que aquilo que estamos a dar. Não só toda a gratidão que o doente nos transmite, como também a aprendizagem de que não temos problemas comparados com todos aqueles que encontramos neste dia-a-dia no IPOC…
Ao fim de duas décadas de voluntariado hospitalar no IPOC, que impacto acha que teve o trabalho dos voluntários da LPCC nesta Instituição?
AS: Teve muito impacto! Há 20 anos, a Liga constituiu uma Comissão de Trabalho que fez um estudo de auscultação a todos os grupos profissionais do IPOC, de modo a avaliarem da aceitação do voluntariado e quais os serviços com maior prioridade. 80% dos profissionais consideraram que a vinda dos voluntários era bem aceite e necessária na própria instituição. 20% desses profissionais, há 20 anos, duvidavam das nossas capacidades. Mas o voluntariado tem vindo a conquistar o seu espaço. Provámos na Instituição que somos precisos e é com muito alegria que hoje ouço dizer: “já não passava sem a presença dos voluntários da Liga Portuguesa Contra o Cancro”.
O impacto junto dos profissionais de saúde é, de facto, muito grande e são eles que muitas vezes nos chamam para darmos o apoio necessário no acompanhamento ao doente.
Em 20 anos que histórias vividas mais o marcaram? Quais as experiências que mais o marcaram?
AS: São muitas as experiências que me marcam profundamente nestes 20 anos. Reúno histórias tocantes, sobretudo com pessoas que para além de cancro, têm Alzheimer, e quando a família tem que se ausentar ficam totalmente desorientadas, sendo o apoio dos voluntários fundamental. Ou a história de doentes que estão totalmente habituados à nossa presença e que têm a preocupação de nos procurar para nos transmitir o quanto gostam de nós. Enfim… histórias com pessoas são imensas, imensas. Eu não sei se cada vez que vou à rua não encontro alguém que me conhece enquanto voluntário. 
Eu sou muito emotivo, mas sobretudo muito bem-disposto. E fico feliz cada vez que me reconhecem pela boa disposição e pelas anedotas que conto na sala de espera. Efetivamente a minha preocupação, e a dos meus colegas, é estarmos sempre sorridentes, mostrarmos alegria.... Procuro o sorriso constante nas salas de espera.  E os utentes já me conhecem pelo convite: “quem quiser pode ir ao carrinho da Liga, há cafezinho, há chá, leite e pão. E lá para as 11h00 temos leitão” (risos). É esta troca de brincadeiras que marcam a minha relação com os utentes. E já são eles que me perguntam: “Então hoje há leitão?” … (risos).
Eu verifico que o meu cabelo foi embranquecendo, sem dúvida nenhuma, mas o meu espírito jovem permanece como há 20 anos.

 
Por Núcleo Regional do Centro a 29 de Dezembro 2016

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