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Grandes orientações estratégicas para o triénio 2016/18

20 de Maio 2016
Grandes orientações estratégicas para o triénio 2016/18
Entrevista integrada na primeira edição da Newsletter O Que Nos Liga - Voluntariado em Oncologia, do Núcleo Regional do Centro
Iniciado o terceiro mandato, na frente da Direção do Núcleo Regional do Centro, o Professor Carlos Freire de Oliveira convoca-nos, nesta conversa, para as linhas de orientação, desenhadas para os próximos anos. Com o poder da vontade que o caracteriza, reclama para o seu relato, a visão de um oncologista que acredita que a “medicina paternalista acabou”, lançando a âncora para o conceito pioneiro da medicina centrada no doente.

Iniciou o 3º mandato como presidente do Núcleo Regional do Centro. Que balanço faz dos dois mandatos anteriores?
CO: Foram totalmente diferentes. No primeiro mandato, assumi simultaneamente a presidência nacional da Liga, onde penso ter introduzido alterações profundas, nomeadamente no funcionamento da Instituição, articulando os vários Núcleos entre si. No segundo mandato, apenas na direção do Núcleo Regional do Centro (NRC), conseguimos dar um salto qualitativo com a criação e implementação de novos projetos, ampliação do quadro de profissionais da Liga, e dos apoios na área do voluntariado, educação e formação. Saliento o elevado número de projetos, cerca de 80, na maior parte desenvolvidos.
 
Quais as principais áreas de intervenção do Núcleo para o triénio que agora iniciou?
CO: No voluntariado comunitário, pretendemos aumentar a formação, bem como ampliar e renovar equipas. Também no voluntariado hospitalar diligenciaremos formação contínua anual, com novas vertentes de abordagem, nomeadamente a questão do Patient Advocacy, para o qual teremos que preparar os nossos voluntários.
Nos movimentos de entreajuda, o Movimento Vencer e Viver (MVV) está a funcionar bem. A mudança de instalações do MVV em Coimbra, recentemente (para as instalações do NRC) possibilitou maior intercâmbio entre os voluntários e os colaboradores da Liga. Relativamente ao (Movimento de Apoio à Pessoa Ostomizada (MAPO), tem progressivamente crescido e assim se pretende. Gostaríamos de criar outros movimentos, nomeadamente de apoio a doentes que tiveram cancro da próstata, porque é efetivamente um dos cancros mais frequentes.
No Centro de Voluntariado Ocupacional (CVO) continuaremos a capacitar os doentes oncológicos para a aquisição de novas competências e a valorizar as capacidades individuais.
Na Educação vamos candidatar-nos a um projeto, pelo Portugal 2020, com o apoio da ARS Centro. Irá ter um arranque piloto no distrito de Coimbra, Aveiro e Guarda, num número limitado de Centros de Saúde. É um projeto na área da educação, da prevenção, de formação dos voluntários e informação das populações que frequentam os Centros de Saúde, e não só, sobre a problemática genérica do cancro.
Quanto a formação, manteremos em certa medida as ações dirigidas a professores, farmacêuticas, assistentes sociais, mas num aprofundamento da metodologia e criando mecanismos para avaliar os resultados dessas ações. Queremos perceber como a mensagem é acolhida e assimilada.
Transversal ao voluntariado e a todas as outras áreas da Liga, vamos organizar a nível nacional, e integrado nas comemorações dos 75 anos da Instituição, o 2º Congresso de Sobreviventes de Cancro. Cinco anos depois da primeira edição, faremos um ponto de situação nos vários parâmetros que interessam ao sobrevivente (…).
 
Qual o papel dos voluntários para o sucesso destes objetivos?
CO: A Liga existe porque existem doentes com cancro e familiares de doentes com cancro. Este é o alvo da LPCC. Para que tudo isto possa funcionar existem os voluntários. E os voluntários da Liga são-no a cem por cento, e não são remunerados. É extremamente importante salientar este facto, porque todos nós sabemos que há inúmeras IPSS com voluntários remunerados.
 
O Patient Advocacy é uma área de intervenção relativamente nova em Portugal e cujo pioneirismo fica associado ao Professor Carlos de Oliveira e à LPCC. O que é e quais são os seus grandes objetivos?
CO: Idealmente, de futuro, deveríamos utilizar terminologia portuguesa, mas não conseguimos de facto traduzir, sobretudo, a palavra advocacy, porque inclui um conceito mais genérico, e nós utilizamos terminologias diferentes. No fundo, o termo advocacy é sinónimo de uma medicina centrada no doente, o grande alvo do conceito Cancer Patient Advocacy.
 
Uma medicina personalizada…?
CO: Sim, uma medicina personalizada, centrada no doente e não na doença. Para isso é necessário sensibilizar os médicos para este novo tipo de abordagem. E, também, educar os doentes e população para a intervenção que podem ter nesta área, nomeadamente no diagnóstico e no tratamento. Isto é, o doente deve sempre perguntar ao seu médico, que lhe propõe determinado exame e determinada terapêutica, qual é a alternativa. Porque hoje em dia na área do cancro, quer nos meios de diagnóstico, quer nos meios de tratamento, existem várias soluções.
Coloca-se, no entanto, uma questão relativa à literacia, e o papel da Liga é educar… educar, chamar a atenção da população. Embora vários estudos indiquem (como por exemplo o estudo da Fundação Calouste Gulbenkian) que a taxa de literacia em saúde em Portugal anda à volta dos 40%, eu penso que não representa o todo nacional, sobretudo as áreas rurais, no interior do país.
Outro aspeto da intervenção do doente, além do diagnóstico e no tratamento, é a sua proteção contra o erro médico. O erro médico não é exclusivamente dos médicos, é um erro em saúde, inerente à profissão.   O doente deve estar preparado para questionar as instituições de saúde sobre que ferramentas e metodologias estas têm disponíveis para evitar o erro médico.
  
Como imagina a aplicação deste conceito em Portugal daqui a 10 anos?
CO: Imagino que é inevitável! Por mais resistências que possam surgir (…). Mas tem que ser feito um esforço para fazer intervir o doente nas decisões que lhe dizem respeito. Porque a medicina paternalista acabou!
 
E qual o papel dos voluntários no Cancer Paitent Advocacy?
CO: Teremos que treinar um determinado número de voluntários para poderem assumir a mensagem técnico-científica. Não pretendemos que estes voluntários venham a substituir os profissionais de saúde, que também são patient advocates, nem os doentes que são os primeiros patient advocates. Queremos é que sejam mais um elemento neste elo de ligação de todas estas pessoas envolvidas no diagnóstico e tratamento do cancro.
 
Setenta e cinco anos de atividade da Liga, assinalados no passado dia 04 de abril. Que etapas do NRC, nesta linha histórica, lhe merecem destaque?
CO: Destacaria a grande etapa dos fundadores deste núcleo, nomeadamente do Dr. Rocha Alves, que foi a criação do voluntariado comunitário. Nós somos o núcleo do país que tem maior nº de voluntários, em todos os concelhos da zona centro.
Outra etapa historicamente relevante foi a criação do Rastreio do Cancro da Mama. Em 2015 comemoramos, no centro e a nível nacional, o 25º aniversário do início do programa. Infelizmente, Lisboa e a península de Setúbal não têm Rastreio de Cancro da Mama. Por maior intervenção que a Liga tenha já feito, não conseguimos. Há uma petição entregue na Assembleia da República. Esperamos que a alteração na gestão na ARS de Lisboa e Vale do Tejo permita finalmente este arranque. O Algarve, como sabem, não é da responsabilidade da Liga.
Outro aspeto que realço, e que o diferencia dos restantes núcleos, é o apoio social aos doentes e familiares. Este é um serviço que está bastante estruturado, com Assistentes Sociais, localizado nos hospitais de Coimbra (Instituto Português de oncologia de Coimbra e Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra) para dar esse apoio social de 1ª e 2ª Linha. Ainda ao nível social insere-se o protocolo de acordo que temos com as farmácias e com a hotelaria (Rede Social de Alojamento).
Marcante, mas mais recentemente, foi o alargamento do voluntariado hospitalar ao Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, e pelo qual durante muitos anos esta casa pugnou. Finalmente podemos colaborar com um voluntariado eficaz e dinâmico.
 
Como caracteriza o médico, voluntário e cidadão Professor Carlos Oliveira?
CO: Alguém que teve sorte na vida… Desde jovem, que entendi que ia ser médico, e fui. Ainda estudante de medicina decidi que queria ser ginecologista, e tive essa possibilidade. Tive a sorte de ter as condições necessárias para que me pudesse doutorar e fazer carreira universitária. Consegui estagiar em França, durante quase 3 anos, num dos maiores centros de tratamento do cancro, o Instituto Gustave Roussy. Tive oportunidade de criar equipas, de conceber a especialidade de oncologia médica, que não existia em Portugal, e que a Ordem dos Médicos me deu a oportunidade de criar…
A Liga era algo que me dizia bastante na área do apoio que dava aos doentes com cancro. Colaboro com ela com satisfação, com algum sacrifício pessoal, mas faço porque quero! É evidente que terei que me ir embora um dia, não por querer, mas por envelhecer. Por outro lado, acho que as pessoas devem estar nas instituições durante um período de tempo relativamente limitado e dar lugar a outros, com outras ideias, com outras metodologias, e isso acontecerá um dia destes.
Falta só acrescentar a parte emocional e de equilíbrio de tudo isto, que é a família. Esse equilíbrio contribui para a sorte de que falo.
 
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Um percurso pioneiro coloca-o na 1ª linha do combate ao cancro. O médico ginecologista, professor catedrático, presidiu também à Comissão Coordenadora da sub- especialidade de ginecologia oncológica da Ordem dos Médicos. A sua inerente condição de independência de espírito fá-lo um decidido promotor e facilitador de projetos.
 
Por Núcleo Regional do Centro a 24 de Maio 2016

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