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O papel do Serviço Social no apoio ao doente

26 de Outubro 2016
O papel do Serviço Social no apoio ao doente
Entrevista com Elsa Abraúl (Vogal do NRC) e José Oliveira Alves (Tesoureiro do NRC) - responsáveis pelo Pelouro de Apoio Social do Núcleo Regional do Centro - integrada na terceira edição da Newsletter O Que Nos Liga - Voluntariado em Oncologia.
Num retrato das principais dificuldades dos doentes, olhamos para os pontos catalisadores do trabalho do Serviço Social do Núcleo Regional do Centro (NRC), quando esgotados os mecanismos estatais ou locais de apoio. Mais de 800.000€ de apoio é o carimbo que evoca e estabelece uma marca de água, um vínculo, deste trabalho que não é isolado, faz-se antes em rede. As histórias impregnadas de urgência colocam no prato da balança um maior nº de pedidos de apoio, com necessidades por mais tempo, assim como o aumento expressivo de linhas de apoio, que quase quadruplicaram, em 5 anos.

Numa perspetiva história, qual tem sido o papel do Serviço Social no NRC?
EA: A criação do Serviço Social remonta à constituição do Núcleo Regional do Centro da Liga, no início da década de 70. O seu papel era, à época, muito diversificado. Passava, sobretudo, pela articulação com o Serviço Social do IPO de Coimbra no apoio ao doente e de humanização dos espaços hospitalares e pelo desenvolvimento de atividades de sensibilização no contexto comunitário. Nas décadas de 80 e 90, passaria a ter um papel interventivo na mobilização de estudantes e profissionais para a luta contra o cancro. Na última década, o Serviço Social centrou as suas competências na avaliação e atribuição de apoios materiais a doentes com carências socioeconómicas e no desenvolvimento de outros projetos que visam minimizar o impacto socioeconómico do cancro no doente e na família.

Quais as principais linhas de apoio ao doente preconizadas pelo NRC?
JOA: A partir de 2011, o NRC desenvolveu 2 linhas de atuação no que respeita ao apoio social material, destinado ao doente oncológico em situação de carência económica comprovada, que se mantêm até aos dias de hoje e que são as seguintes:
. 1ª linha – apoio com vista a assegurar a acessibilidade aos cuidados de saúde pela atribuição de apoios imediatos aos doentes acompanhados no IPO (e a partir de 2014 do CHUC), onde o NRC detém gabinetes de apoio social, apoios esses que se destinam a minimizar encargos com deslocações ao Hospital para tratamentos/consultas/exames, medicação prescrita nestas entidades hospitalares ou ajudas técnicas tais como próteses mamárias, suportes mamários, próteses capilares, material de ostomia ou suplementos nutricionais. Estes apoios são atribuídos aos doentes sempre que se deslocam às consultas/exames/tratamentos;
. 2ª linha – apoio destinado a doentes em acompanhamento clínico nos Hospitais da zona de abrangência do NRC, com vista a garantir a subsistência do doente e seu agregado familiar com dificuldades no cumprimento dos seus encargos e na satisfação das suas necessidades básicas, sendo direcionados, por exemplo, para o pagamento da renda de casa/empréstimo com habitação, despesas fixas inerentes à habitação (água, luz, gás), medicação, alimentação de frescos, ajudas técnicas, valências sociais, etc. Este âmbito de apoio pressupõe uma articulação entre as Assistentes Sociais do NRC e outros profissionais da comunidade e voluntários por forma a desenvolver uma intervenção articulada entre os vários serviços, realização de visitas domiciliárias aos doentes residentes no Concelho de Coimbra e a aprovação por parte da Direção do Núcleo. Estes apoios têm carácter trimestral ou semestral, sendo reavaliados com a mesma frequência.

Mas quais são os critérios utilizados e como são avaliadas as necessidades?
EA: Por forma a que haja equidade na atribuição de apoios sociais por parte do NRC, foram estabelecidos critérios na avaliação dos pedidos que nos são remetidos. Assim, são solicitados ao doente comprovativos de rendimentos (ou ausência destes), bem como as despesas fixas mensais do agregado familiar. Para a avaliação, essencialmente no âmbito de 2ª linha, é ainda considerado o n.º de elementos que compõe o agregado familiar já que as necessidades aumentam consoante o n.º de pessoas que coabitam com o doente. O apoio por parte do NRC tem lugar quando esgotados os mecanismos estatais ou locais de apoio e destina-se, de facto, apenas ao doente em situação de carência económica comprovada. Importa referir também que este apoio não é um direito que ao doente assiste, mas sim o reconhecimento por parte desta Instituição da existência de necessidades que colocam em causa o seu bem-estar.

Quais as principais dificuldades apresentadas pelos doentes?
EA: Dos pedidos de apoio que nos são remetidos (e que podem provir do próprio do doente ou sua pessoa significativa, voluntários, Técnicos, colaboradores da Instituição, etc), verificamos a existência de necessidades muito diversificadas. Por exemplo, os doentes acompanhados no IPO e CHUC, no âmbito de 1ª linha, têm necessidades, essencialmente, relacionadas com as deslocações regulares ao Hospital para cumprimento do seu plano terapêutico e com a aquisição de medicação prescrita. No caso dos apoios de 2ª linha (note-se que um doente que beneficia de apoio de 1ª linha pode, simultaneamente, beneficiar de apoio de 2ª caso as suas necessidades sejam de âmbito mais alargado), o NRC tem efetuado uma tentativa de alargar os apoios e adequá-los de acordo com as necessidades apresentadas. Importa, também ressalvar
o apoio na alimentação de frescos (carne, peixe, frutas, legumes, leite e derivados) cuja concretização só é possível com a colaboração dos GVC’s que podem atuar de 2 formas: acompanham o doente às compras ou efetuam as compras para o doente e entregam em suas casas (esta última possibilidade tem maior relevo em meios mais pequenos cujo sentimento de vergonha de exposição das suas dificuldades é maior, implicando por parte do voluntário maior discrição e sensibilidade).
Verificam-se, ainda, necessidades relacionadas com o alojamento de doentes ou acompanhantes em Coimbra ou o transporte dentro da Cidade.
 
O número de doentes que procuram apoio na Liga tem aumentado?
JOA: Sim, quer o número de doentes, quer o n.º de apoios tem aumentado, verificando-se, inclusivamente, que os doentes necessitam de apoio por mais tempo.

    Qual a expressão financeira dos apoios atribuídos?
    JOA: Se, em 2011, os apoios no âmbito de 1ª linha representavam 60% dos fundos direcionados ao apoio direto ao doente, nos últimos anos, o apoio de 2ª linha tem ganho maior expressão, representando em 2015 54% do total atribuído.
     
    Que outros projetos desenvolve o NRC no âmbito do apoio material?
    EA: O Núcleo desenvolve mais 2 projetos no âmbito do apoio material: “Rede Social de Alojamento” e “Rede Social de Transporte”.
    O 1º tem como objetivo proporcionar ao doente oncológico/pessoa significativa condições de alojamento na Cidade de Coimbra a preços mais acessíveis em caso de necessidade de permanência na Cidade por motivos inerentes ao acompanhamento clínico do doente, através do estabelecimento de protocolos com unidades de alojamento localizadas geograficamente perto dos Hospitais.
    É um projeto com uma vertente informativa, destinada ao doente oncológico/pessoa significativa em geral, e social, podendo, neste caso, o NRC apoiar em parte ou na totalidade dos encargos a este nível se se tratar de doentes em situação de carência económica.
    Implementado em finais de 2013, este projeto, na sua vertente social, foi iniciado em 2014 com a atribuição de apoio no valor de 667€ e em 2015 de 1.451€.
    No que se refere ao 2º, tendo em conta que muitos doentes oncológicos se deslocam aos Hospitais de acompanhamento em Coimbra de transporte público, este projeto, que teve o seu início em finais de 2014, visa “dar uma boleia” aos doentes/acompanhantes beneficiários dos projetos anteriormente descritos desde o terminal rodoviário/estação de comboios para o Hospital ou Unidade de Alojamento. A viatura disponibilizada para o efeito resultou de um legado deixado por um doente cujo desejo era que se destinasse para o apoio direto ao doente e o projeto contou com o patrocínio da TRANSDEV.
    Em 2014, foram realizados 40 transportes e em 2015 874.

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    Nos últimos 5 anos, quer o n.º de doentes, quer o n.º de apoios tem vindo a aumentar, destacando-se, a 2ª linha cujo n.º de apoios quadruplicou;
    . Foram prestados 20.747 apoios a um total de 1.799 doentes;
    . Se, em 2011, os apoios no âmbito de 1ª linha representavam 60% dos fundos direcionados ao apoio direto ao doente, nos últimos anos, o apoio de 2ª linha tem ganho maior expressão, representando em 2015 54% do total atribuído; 
    . Nos últimos 5 anos, foram atribuídos mais de 800.000,00€ de apoios a doentes em situação de carência económica; 
       
                  Por Núcleo Regional do Centro a 09 de Novembro 2016

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