Notícias

Voltar

Voluntariado: “Vou onde for preciso”

20 de Maio 2016
Voluntariado: “Vou onde for preciso”
Entrevista integrada na primeira edição da Newsletter O Que Nos Liga - Voluntariado em Oncologia, do Núcleo Regional do Centro.
Natália Amaral, Secretária-Geral da Direção do Núcleo Regional do Centro (NRC), desde 2007, trabalha com o coração, num tempo que é de reforço e valorização de laços com a comunidade, de sinergias e redes de afetos. Num exercício de balanço, vamos falar de voluntariado, esse genuíno património da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Histórias e projetos com a grafia da palavra afetos, embrulhadas num sorriso aberto.
 
É médica Ginecologista. Como surgiu o interesse pelo Voluntariado?
NA: Como alentejana que me prezo, e ainda enquanto estudante, senti-me impulsionada por colaborar com a Conferência Vicentina.  Das ações de apoio em que colaborei, recordo a levada a cabo num bairro de famílias desfavorecidos e numerosas, que consistiu na construção de casas novas, com todas as comodidades, e o seu alojamento aí.
Nós vicentinos visitávamos essas famílias. Mas não foram precisos muito anos para que estas famílias voltassem para o bairro de lata, deixando estas casas novas. Menos uma, que na altura era visitada também por nós. Uma família perfeitamente integrada, mas que ao fim de pouco tempo acabou também por deixar este bairro e regressar às suas origens. Foi um balde de água fria. Aqui comecei a pensar que é preciso fazer mais qualquer coisa. Ir ao local e falar com as famílias não chegava.  Era preciso fazer mais.
Entretanto integrei os escuteiros e, nessa vida escutista, fui-me apercebendo sobretudo dessa necessidade de um trabalho mais organizado das instituições. E nasceu daqui a minha vontade de trabalhar o social, na vertente do voluntariado.
 
O NRC conta já com uma estrutura de mais de 1000 voluntários. Este nº reflete a sua proximidade às pessoas e comunidade ou é maioritariamente sinónimo de um aumento das necessidades de apoio desta natureza?
NA: É preciso realçar que o NRC sempre trabalhou a comunidade e que foi neste âmbito, que uma das principais atividades que o Núcleo promove - o Programa de Rastreio do Cancro da Mama, teve o seu início. Eram estes voluntários que iam de porta em porta relembrar às mulheres “Olha, está cá a Unidade, tu amanhã vais fazer a mamografia”, eram estes que batiam à porta dos presidentes de Juntas de Freguesia, das Câmaras Municipais, para arranjar transporte para estas mulheres. Portanto, esta vertente de prevenção secundária estava muito presente na relação com o voluntário. A Liga teve necessidade, de facto, de chegar à comunidade desta maneira, para poder fazer o seu trabalho de Rastreio. Mas, ainda hoje encontramos muitas pessoas que não sabem o que a Liga faz. Ir até à comunidade é importante para mostrar o papel e o impacto social da Instituição. É essa sempre a minha luta. Por isso não descanso enquanto não conhecer todos os Grupos, todos os concelhos. Vou onde for preciso. 
 
Cerca de 18 anos de colaboração com a LPCC, que marcos históricos realçaria como mais relevantes para o voluntariado da Instituição? 
NA:  Nos anos de assessoria para o rastreio, numa fase inicial da minha colaboração, sentia a Liga muito hermética. Com poucas respostas e poucas abordagens sobre o voluntariado comunitário. Quando cheguei ao secretariado geral da Direção do Núcleo Regional do Centro, comecei a trabalhar no sentido de pôr em prática o que sempre defendi: olhar para o voluntariado com outros olhos. Desde esta fase até aos mandatos do Professor Carlos Freire de Oliveira, passamos para a execução dessa proposta de maior formação, renovação, envolvimento dos Grupos de Voluntários… No fundo uma proximidade maior da Liga à comunidade.
 
A formação dos voluntários torna-se fulcral para o melhor desempenho e interação destes agentes. Como faz a LPCC esta gestão dos voluntários, nomeadamente em termos de estratégias de orientação e integração?
NA: É essencial. Devemos formar os voluntários. Dar-lhes bagagem suficiente para depois irem para a comunidade. 
 
O projeto “Dou Mais Tempo à Vida”® é uma das iniciativas dinamizadas pelos Grupos de Voluntariado Comunitário do concelho onde decorre. É um bom exemplo do impacto que o voluntariado pode ter na mudança de atitudes e comportamentos para a prevenção do cancro?
NA: Esse projeto é o exemplo típico do que podemos fazer na comunidade, nomeadamente porque cada equipa criada e os elementos da sua organização, trabalham em determinado sector da sua comunidade, o que faz com que o projeto seja muito bem aceite. Foi o que aconteceu na Mealhada e na Lousã, nas edições anteriores. Ainda hoje podemos ver o interesse dessas pessoas, e ver, por exemplo, uma criança que olhando para a roda da alimentação sabe o que deve ou não comer, que não se deve fumar (…).
 
É sinal também de que a resposta da comunidade à ação do voluntário da Liga é uma resposta positiva. Por exemplo as caminhadas “Pequenos Passos, Grandes Gestos” (PPGG). A que se deve esta grande resposta de solidariedade por parte da comunidade?
NA: Em primeiro lugar às voluntárias do Movimento Vencer e Viver da Liga, a quem se deve a implementação prática da iniciativa e todo o esforço de organização e divulgação; depois, à continuidade da iniciativa, que iniciou em 2010, na altura a participação não chegou às 2000 pessoas e em 2015, na sua 6ª edição, contou com mais de 8000 participantes. Depois, porque ninguém consegue ficar indiferente ao mote destas caminhadas, a prevenção do cancro da mama, que anualmente bate à porta de 6000 novas mulheres, afetando também as suas familiares e toda a comunidade… De facto, cada vez há mais pessoas a aderir às caminhadas PPGG, e isso é muito importante, sobretudo em cidades do interior.
 
Voluntariado Hospitalar, de que forma pode contribuir positivamente para o bom funcionamento das organizações?
NA: Os voluntários hospitalares são muito necessários. E agora fala aqui a médica. Porque no fundo nós os profissionais, médicos, enfermeiros, e outros profissionais, estamos muito limitados em tempo. Muitas vezes um doente tem necessidade de “sair da doença”. De falar com alguém que não esteja doente, ou que já tenha estado doente, e que ele vê que está perfeitamente bem. (…). Daí a nossa luta de querer entrar nas enfermarias (…). O facto do voluntário se esquecer de si próprio e estar ali só para ouvir é muito importante. Basta ouvir.  
 
Foi Coordenadora Nacional do Voluntariado da LPCC, no triénio anterior. Que desafios lhe merecem destaque? 
NA: O incutir, na autonomia de cada núcleo, uma atitude nacional. Uma atitude de voluntariado e não o cada um trabalhar por si. Devo realçar a amizade, a inter-relação que se criou entre os coordenadores de voluntariado dos vários núcleos. Penso que foi uma vitória. Embora com a autonomia pertencente a cada núcleo, conseguimos maior uniformidade em termos de procedimentos. 
  
Quais as linhas estratégicas para o voluntariado do NRC durante o próximo triénio?
NA: Aquilo pelo qual nos debatemos sempre, e que será: a formação e o acompanhamento presencial de todos os Grupos de Voluntariado Comunitário, tendo em vista conhecer a realidade, as pessoas, as dificuldades com que os voluntários se confrontam; a nível hospitalar, seremos teimosos, não desistimos de entrar nas enfermarias. (…). Isto é válido, quer para o IPO de Coimbra, quer para o CHUC (embora o Movimento Vencer e Viver esteja nas enfermarias, mas nós queremos os Voluntariado Hospitalar também com esse apoio). Gostaríamos ainda de organizar alguns grupos de entreajuda, nomeadamente dos laringectomizados, dos ostomizados, e para doentes com cancro da próstata. Estes são os grandes desafios.
Depois tenho um sonho… Também é permitido sonhar.  Gostaria muito que a Liga conseguisse expandir o seu voluntariado ao Hospital Pediátrico.
 
Assumiu recentemente a Coordenação Nacional para o Apoio Social. Quais as principais estratégias e desafios que se seguem?
NA:  Queremos conseguir harmonizar e que seja a Liga a trabalhar os casos sociais e não se limitar a aceitar uma requisição para uma prótese, para uma consulta de Psico-oncologia, sem que haja uma conversa prévia, uma avaliação por parte da LPCC.
  
Como voluntária, qual foi a experiência mais marcante?
NA: O que mais me marca é, quando vou a determinados concelhos, constatar como essas pessoas estão longe de tudo. O sentir que elas estão tão isoladas, é perturbante. Nos dias de hoje, custa-me a aceitar que só exista um transporte coletivo que sai às 07h00 e apenas regressa às 20 horas.
Tenho presente o relato de um doente, com metastização óssea de um carcinoma da próstata, que saia às 03h00 da manhã de casa para vir fazer radioterapia a Coimbra. Esta distância aos centros de decisão principais, preocupa-me.
 
O Voluntariado está obrigatoriamente no centro das ações desenvolvidas pela LPCC?
NA: Sempre! O voluntariado é a alma fundamental da Liga. É um dos pilares da Instituição. No dia em que acabar, acabará também a Liga.

 
Por Núcleo Regional do Centro a 24 de Maio 2016

Voltar

Sugestões

Apoios & Parcerias