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Maria Francisca Carvalhas da Motta Ferreira

19 anos Mama, 2005, Familiar
Embora seja uma jovem, talvez um pouco inconsciente, vivi uma situação muito perturbadora e desgastante emocionalmente com a minha tia, portadora do cancro da mama, da qual tento no meu dia-a-dia usá-la como um ensinamento do significado da vida. O cancro foi-lhe diagnosticado em 2005. Ela procedeu a uma operação em que lhe foi retirada parte de uma mama, não a mama integral, decisão dela. Pessoalmente não considerei esta opção correta. Embora uma miúda de 14, aconselhei-a a retirar a mama toda mas ela não o quis fazer. Posteriormente fez radioterapia no IPO, não me lembro concretamente quanto tempo, pois já lá vão 7 anos. Eu e a minha mãe (irmã) acompanhámo-la durante todo este tratamento e o seguinte mais doloroso, a quimioterapia. Durante 5 anos ela manteve-se estável e aparentemente curada. Contudo considero que neste intervalo de tempo ela não adotou um estilo de vida saudável e propício a um estado de tranquilidade e felicidade, que na minha opinião, embora difícil, é importante para ultrapassar esta doença. A alimentação da minha tia sempre foi muito má bem como o ritmo de vida que levava, era uma pessoa muito instável emocionalmente. Durante parte da vida teve várias depressões, perdeu o emprego várias vezes, entrava frequentemente em conflito connosco (familiares) e amigos. Digo-o com muita tristeza que ela nunca conseguia reconhecer os seus defeitos e considerava que todo o “mundo” estava errado menos ela. Desde pequena sempre tive uma relação muito próxima com ela, mas à medida do tempo fui-me consciencializando de alguns comportamentos e atitudes que ela tomava comigo, com os meus avós e a minha mãe que me foram gradualmente deixando revoltada. Após a perda da sua casa viveu comigo e com a minha mãe durante alguns anos, o que afetou a minha adolescência já depois de ter conhecimento da doença. Em 2009 foram-lhe detetadas metástases noutros órgãos. Voltou a fazer quimioterapia mas a meio do tratamento incompatibilizou-se com a oncologista dela e interrompeu o tratamento, que na minha opinião foi o pior erro a que já assisti por parte de alguém na minha vida. Essa situação custou-me imenso porque eu sabia que a partir daí as coisas não iam correr bem. Tentei demovê-la mas ela era dona das suas vontades! A minha relação com ela estava de facto muito despedaçada mas não desisti dela porque conhecia o amor que ela sentia por mim e eu por ela independentemente de qualquer situação desagradável. Pediu-me que fosse com ela ao IPO para recomeçar um novo tratamento lá, e fomos. Ela foi a conduzir. Em três semanas o cancro evoluiu drasticamente e as metástases passaram para os ossos. Ela morreu sem eu lhe conseguir dizer tudo o que sentia sobre o nosso afastamento e sem a conseguir ajudar a mudar a sua maneira de estar e olhar para vida que foi desde sempre tão negativa. Com esta vivência senti que cresci num ano 10 anos. Aprendi o quão importante a vida é e a imensidade de frutos que nós podemos colher dela se estivermos dispostos a isso. Devemos ser cuidadosos com as decisões que tomamos, sermos ativos e procurar formas de afastar as nossas infelicidades nem que seja voluntariando-nos para doarmos alguma coisa boa, dentro dos padrões, nossa. Ajudar ocupa mentes ociosas. Passei a dar outra atenção ao meio que me rodeia e a ter outras preocupações, bem como a tentar relativizar determinados problemas, que sei que não um processo fácil. Acho que o positivismo das pessoas e um estilo de vida saudável são dois dos grandes fatores importantes para afastar este tipo de doenças. Olha para o cancro como se fosse uma consequência do desgaste psicológico acabando por levar ao desgaste físico. Apelo à força de todos os doentes que tenham este “bicho muito mau”, para que lutem sempre pela vida. Que procurem nela as coisas mais belas, aquelas que as completam sejam quais forem e que lhes deem alento: a família, a vontade de melhorar o ambiente e erradicar a pobreza, de viajar, de fazer desporto, de comer uns bolos, de rir, de ler, de ir a museus, de tomar banho no mar e no rio. Seja o que for! Sou estudante universitária e mal consiga organizar o meu tempo e ter disponibilidade, o que está para breve, vou voluntariar-me para dar força a estas pessoas, com qualquer idade, tamanho, etc., e ajudá-las em tudo o que estiver ao meu alcance.
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