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Ana Paula

37 anos Outro, Doente
Muito cedo a vida me mostrou que o caminho que eu teria de percorrer, não iria ser fácil. Que teria de crescer muito rapidamente, e que teria de passar por uma dura prova, lutar pela minha própria vida. Quando nada fazia prever que a minha vida fosse bruscamente interrompida, com 16 anos fui presenteada com um cancro. E tudo o que ele traz consigo: a dor, o sofrimento, a angústia e a dúvida. De um momento para o outro deixei tudo para trás: família, amigos, escola e tudo o resto. A minha adolescência foi-me roubada. Não imaginava tão pouco o que me esperava, os sofrimentos pelos quais tinha de passar. Com o tempo fui vendo. Exames, a espera dos resultados. Cada minuto representava uma eternidade, mas confiando sempre que apenas iria fazer uma operação e tudo voltaria ao normal, como até ali. Mas o veredito final chegou. Eu tinha um cancro maligno! Tinha de ser operada logo, porque rapidamente evoluiria. Ou seja, não poderia perder tempo? Começou a corrida contra o tempo, uma corrida pela minha vida. Nessa altura eu não tinha conhecimento do que ia acontecendo, do que teria de fazer e dos riscos que corria. Muita coisa me foi escondida, para não sofrer, tanto pelos médicos como pelos meus pais. Com o tempo, fui vendo que corria risco de vida. Mas em momento algum quis desistir. Comecei a avaliar o que tinha sido, o que poderia ter sido a minha vida até ali, e o seria dali em diante. Avaliei o tempo que perdemos com as coisas mesquinhas do dia a dia, quando temos algo tão precioso como a nossa vida e a que não sabemos dar o devido valor. Vi vida a fugir-me por entre os dedos e tive plena noção do bem precioso que temos. Com 16 anos, na inocência da minha juventude, consegui ver e sentir o que muitos de nós não valorizamos: o que é viver! A beleza de tudo o que acontece, do nascer do sol ao encanto da chuva, o calor de um sorriso, um toque, um abraço de alguém que nos é querido, um olá, o barulho do mar e a paz que ele nos transmite, uma flor, o sorriso de uma criança. Tudo o que nos rodeia e faz parte do nosso universo. Como não dar valor a isso? Se o melhor de tudo é estar vivo? Como podemos não agradecer todos os dias o bem precioso que Deus nos deu, a vida? Eu não poderia deixar que tudo isso me fosse roubado, quando tinha tudo isso para apreciar, para viver e muito mais para agradecer! Foi aí que descobri a coragem que podemos ter dentro de nós, e que não devemos esquecer. Agarrei-a com todas as minhas forças, e junto com as pessoas que estavam à minha volta, os meus pais, irmãos, amigos, lutei por cada segundo que passava e por cada um que viesse. Cada dia era uma batalha e uma conquista. No meio de todo esse turbilhão, os médicos não me davam garantias de sobrevivência. Segundo eles, eu era muito nova e por isso corria mais riscos. Portanto, teriam de fazer-me uma amputação, visto o tumor ser na perna. Com medo de que não sobrevivesse, o meu pai não autorizou. Deixou tudo nas mãos de Deus. Infelizmente foi o que veio a acontecer mais tarde. Mas venci também essa provação, como todas as outras! Hoje, passados 20 anos desses difíceis momentos da minha vida, consigo olhar para trás e ao ver tudo o que passei, dou por mim a pensar: “Como pode alguém na melhor fase da sua vida superar tal angústia? Como sobreviver a tal sofrimento? Onde ir buscar força e coragem com 16 anos?” Mas fui capaz! Felizmente nunca estive sozinha! Descobri que sou forte, que todos o somos quando precisamos de seguir em frente, quando precisamos de lutar, mesmo contra a morte. Depois de meses difíceis, as coisas foram-se recompondo. Os médicos estavam confiantes, eu também. O tempo foi passando e eu fui obrigada a crescer. Finalmente foi-me dito que estava curada. É indescritível o que se sente, quando sabemos que vencemos! Venci o cancro, algo tão temível, tão assustador. Que aprendi com tudo isso? Que a vida é bela, que tudo nela vale a pena; que nunca devemos baixar os braços diante das dificuldades; que tudo devemos enfrentar com coragem, e que emboranão saibamos bem onde a ir buscar, devemos acreditar que vamos ser vencedores, e que das coisas más podemos tirar lições de vida. É passando pelas provações que damos valor às coisas boas. E é com os sofrimentos que crescemos. É devido a tudo o que passei que hoje sou o que sou, que me considero uma guerreira, uma vencedora, uma pessoa com princípios e valores, lutando sempre pela vida. Consigo agradecer o que a vida me deu de mau, porque se isso não acontecesse, certamente não seria a pessoa que hoje sou. O cancro pode tirar-nos uma perna, um braço, qualquer coisa, mas isso é matéria. A essência está em nós. E essa nem o cancro nem ninguém nos podem tirar. Faz parte de nós. O meu lema de vida: Viver um dia de cada vez e cada um como se fosse o último. Mas viver sempre, e sempre com muita intensidade.
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