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Metade da população sabe pouco sobre cancro e os médicos falham na comunicação

10 de Abril 2026
Liga Portuguesa contra o Cancro celebra 85 anos e gostava de ter os portugueses mais bem preparados para a prevenção e o tratamento oncológicos. Aos médicos prescreve aulas sobre como comunicar com quem está doente Muito mudou desde o início, mas há ainda muito caminho a percorrer desde que a Liga Portuguesa Contra o Cancro foi criada.

Esta sexta-feira assinala 85 anos de vida e gostava de ter como presente cidadãos mais informados e médicos mais empáticos. Ao Expresso, o presidente da Liga, Vítor Veloso, reconhece que a ciência evoluiu, contudo, o fator humano tem sido mais lento nos seus progressos. “É preciso promover a literacia e a informação à população para que possa estar mais informada sobre a prevenção primária (os comportamentos) e sobre as decisões clínicas, cada vez mais partilhadas com os doentes.

Ainda temos um longo caminho, pois 50% da população não tem conhecimentos para tomar uma decisão quanto à sua doença ou sobre as medidas adequadas para evitar ter um cancro precocemente”, garante Vítor Veloso. A impreparação não é apenas uma lacuna entre a população. Vítor Veloso faz um diagnóstico semelhante entre os clínicos no que se refere à relação com os doentes. “Há uma grande dificuldade de comunicação entre médicos e doentes. Falta empatia. Os médicos já nem sabem comunicar, por estarem assoberbados pela burocracia.” E sugere mesmo que “devia existir nas faculdades de medicina uma disciplina para comunicar”.

A partilha de informação, sobretudo sobre o que sentem os doentes, falha ainda na cúpula decisória. “A Liga continua a não ter assento em muitas comissões de decisão ou de opinião, embora precisem dos doentes. Mas a verdade é que os doentes ainda não têm esse lugar”, critica o presidente. E a importância dos dados do terreno para os decisores vai ser demonstrada em breve.

Estudo para justificar baixas a 100% A Liga tem em curso um estudo para apresentar evidências de que “é possível o Governo dar a baixa médica a 100% a uma grande maioria de doentes com cancro”, assegura Vítor Veloso. A proposta foi chumbada recentemente no Parlamento, “porque não estava devidamente fundamentada”, mas a Liga irá avançar com “um estudo blindado no qual o Governo vai perceber que os custos estão amplamente justificados”.

Não será para todos os doentes, mas será para um número muito vasto, por exemplo com cancros colorretal, da mama, do aparelho digestivo ou do rim. Alojamento para doentes no Porto e em Lisboa Nos planos a médio prazo, estão ainda incluídas outras metas. “Vamos ver qual vai ser a evolução da situação mundial, as dificuldades, mas estamos a fazer alojamentos no Porto e em Lisboa para doentes carenciados em tratamento ambulatório.”

As obras estão a avançar, assim como o apoio a investigadores: “A Liga apoia muito a investigação em oncologia. Dá cerca de 700 mil euros em bolsas, é já um grande apoio para os investigadores”, sublinha Vítor Veloso. O cancro é uma das áreas para quais a população está muito sensibilizada, por exemplo, não faltam voluntários, e a Liga tem por isso conseguido apoiar um número crescente de doentes e famílias. “Temos auxiliado do ponto de vista afetivo e social mais doentes. São já três milhões de euros em ajudas diretas, e esta crise que se está a aproximar é cada vez mais dramática.” Vítor Veloso explica porquê: “Pode faltar dinheiro para tudo o resto, para as ações da Liga, mas não para o apoio aos doentes. Já têm um trauma muito grande com a doença e a falta de apoio social é a ruína do doente”.

Do ponto de vista clínico, é preciso melhorar o rastreio. “Na mama e no colo do útero funciona muito bem, mas no colorretal funciona muito mal e no pulmão, estômago e próstata ainda se está em pilotos, embora o pulmão esteja a avançar”, diz o presidente da Liga. Em dia de aniversário, a Liga gostava de receber mais alguns presentes da ministra da Saúde. A Ana Paula Martins reconhece várias vitórias e gostava que fossem ainda mais.

“Esta ministra alargou os rastreios na mama, melhorou o atestado multiusos, a alimentação parentérica (diretamente na corrente sanguínea) ou o direito ao esquecimento, junto dos bancos e das seguradoras, mas precisamos demais benefícios fiscais, mais apoio nas baixas médicas e que os novos tempos máximos de resposta sejam cumpridos.” Vítor Veloso afirma que o acesso em 30 ou 60 dias, sem os anteriores prazos de 72 horas ou 15 dias para resposta, não será penalizante se forem, mesmo, cumpridos.
Por Expresso a 13 de Abril 2026

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