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Ana Carolina Ribeiro Oliveira

18 anos Pulmão, 2015, Familiar
Esta é a batalha que nunca nos imaginamos a passar. São coisas que vemos acontecerem a outros, temos pena, mas não imaginamos o sofrimento que é, nem imaginamos sequer que um dia bate à nossa porta. Em Junho de 2015, bateu na minha porta. Vivo com os meus avós desde que nasci, os meus pais emigraram há 3 anos e desde então a relação forte que tínhamos ficou ainda mais forte. Desde Janeiro deste ano que o meu avô se queixava de uma dor num pulmão. Apesar do historial de cancros na família (3 irmãs dele já tinham morrido de diferentes cancros), o meu avô nunca foi seguido por médicos, tinha medo de lá ir e receber o mesmo diagnóstico que as irmãs, por isso, media a tensão na farmácia e por ter bons valores achava que estava tudo bem. Em Junho, começou a deitar sangue quando tossia. Só assim foi ao médico, mesmo depois de eu já lhe pedir desde Janeiro para o fazer. Fez um raio-x e detectaram-lhe uma grande pneumonia. O médico passou lhe uns antibióticos e um novo raio-x para fazer dali a 2 meses. Como estava cada vez pior, foi novamente ao médico e fez um TAC aos pulmões. Chegou a casa com a pior notícia. Tinha um tumor no pulmão. Mas tudo bem, custa mas o médico disse que ia ser enviado para o hospital, operavam-no e ficava bem. SEMPRE tivemos essa esperança. Foi para o Hospital, fazer mais exames, muitos exames. Para o processo ser mais rápido ficou lá internado várias vezes. Os exames detectaram aquilo que nunca imaginamos, o tumor já se tinha metastizado para o cérebro. Fiquei sem chão, com um vazio e aperto no peito. Perdemos tudo, de ser operado e ficar bem ficamos com: 'Ele vai começar a perder a consciência gradualmente, este tumor não é operável e pode fazer qualquer tipo de danos, desde perder a visão, a deixar de andar, a deixar de falar, a perder a inibição e pôr-se nu em frente a toda a gente, a tornar-se agressivo, a perder a memória'. Ah, e esqueci-me da pior parte mesmo: 'uma pessoa na condição do seu avô tem no máximo 6 meses de vida'. Dói muito e decidimos não lhe dizer para não o fazer sofrer mais com o medo. Mas depois lá tivemos que lhe contar, pois teve que fazer Radioterapia à cabeça para tentar estabilizar o tumor e dar-lhe 'mais tempo'. As dores começaram a aumentar, cada vez mais, sempre a alterar a medicação, sempre muito sofrimento para ele e para nós (eu, avó e o meu irmão que tomávamos conta dele). Ia também fazer Quimioterapia, mas no final das sessões de Radioterapia ele estava muito debilitado, no espaço de 3 semanas deixou de andar, de comer sozinho, ficou com um olho fechado, não conseguia falar, já não se lembrava bem das coisas e começou a ter alucinações. Descobrimos também durante esse tempo que o tumor também se tinha metastizado para os ossos (para as costelas, junto ao pulmão afetado). Foi internado no final das sessões de Radio para começar a quimio, mas estava com anorexia de grau 1 e uma infecção urinária tão grande que os rins podiam parar a qualquer momento. Mandaram-no para casa, com dias ou semanas de vida, mas não mais que 1 mês. Preparamos tudo para ele, desde montar uma cama de hospital a tratar dos serviços de um lar para nos ajudarem a dar lhe banho, visto estar acamado e ser uma pessoa muito pesada. Ficou tão feliz por vir para casa. Veio numa quinta à noite. Durante a semana que se seguiu, perdeu a memória por completo e tinha frequentes alucinações. Na sexta-feira da semana seguinte, após uma semana de estar em casa, estava já muito pior que o que tinha vindo, apesar dos nossos esforços contínuos para que ele melhorasse. Nessa sexta-feira demos-lhe a sopa para almoço. Fui almoçar. Quando voltei, fui ao quarto e ele respirava. Uns quartos de hora depois parei. Ouvi o silêncio que tomava conta da casa e não achei normal. Fui vê-lo, e Deus tinha-mo tirado. Levou-o a 16 de Outubro de 2015. Não há palavras que possam descrever o quão dolorosa é esta doença, o quão cansativa é esta batalha. Não ficamos com remorsos, fizemos TUDO. Não lhe podemos dar o que mais queríamos, a saúde. Para vocês, que estão a ler, deixo-vos esta mensagem: a pessoa sente-se assustada, perdida e revoltada a partir do momento em que é diagnosticada. O apoio da família é ESSENCIAL neste processo. Tenham força, eu não sinto que tenhamos perdido esta batalha porque lutamos muito. Alguma coisa aprendemos com isto. Lutem, dêem tudo o que têm, não se deixem vencer pelo medo que será muito, mas que não vos pode consumir. É revoltante mas não há nada a fazer a não ser LUTAR até não terem mais forças, a esperança é SEMPRE a última a morrer.
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