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Branca Roriz santos

56 anos Pulmão, 2010, Doente
Em 2006, a minha filha, então com 31 anos, teve linfoma de Hodgkin. Apareceu-lhe um gânglio no pescoço e, a princípio, pensava-se que seria cancro da tiróide. Quando recebemos o resultado da biópsia, pensei que morria de dor e aflição. O meu neto tinha 2 anos e eles precisam um do outro... Felizmente, a quimioterapia e radioterapia a que foi sujeita, no IPO, durante dois anos, resultaram, e o cancro regrediu. Talvez por isso, quando, em janeiro de 2010, me foi diagnosticado adenocarcinoma do pulmão, achei simplesmente que aquilo era só mais uma coisa contra a qual eu tinha que lutar. Sou professora do Ensino Secundário (aposentada, agora) e vivo sozinha há muitos anos. Devo também esclarecer que sou uma pessoa bastante desregrada, que detesta rotinas, que se opõe a tudo o que lhe pareça obrigatório ou proibido. Gosto do excesso, do extremo e do imprevisível. Seguir uma dieta, cumprir um horário, andar sempre pelo mesmo caminho, não poder isto ou ter que fazer aquilo, eram (são) grandes sacrifícios. Deixar de fumar -ah, deixar de fumar por imposição! Ah, não poder fazer fosse o que fosse que me apetecesse! Pois. Tudo isso se tornou secundário. O que interessava era sobreviver. Para depois poder viver. Recordo o meu primeiro pneumotórax, provocado pela biópsia para determinar o tipo de cancro e que me valeu uma semana de internamento. Encarei-o como uma espécie de treino para o que viria a seguir. Fiz quimioterapia, claro! E chateei toda a gente à minha volta, para me levarem, me trazerem, me darem a mão quando era preciso! Fui operada em abril. Nunca pensei que podia morrer. Confiei sempre na competência dos médicos e no progresso da ciência. Durante a recuperação da cirurgia - retiraram-me um terço do pulmão direito - ainda no hospital, tive vários pneumotóraxes e sofri muito fisicamente. Quando saí, vinte e três dias depois, tinha menos 10 quilos que o meu peso normal. Mas tinha também a minha filha, o meu neto, os meus irmãos, a minha mãe e os meus amigos à minha espera. Entretanto, no verão desse ano e quase completamente restabelecida, fui vítima de um acidente de viação com a minha mãe e o meu neto. Ele tinha 6 anos nessa altura. Sofreu um traumatismo abdominal, com lesões no fígado e pâncreas (pancreatite). Ia eu a conduzir e o meu neto estava em perigo de vida. Eu tive apenas umas fraturitas na cervical e novo pneumotórax, o que me impediu de estar ao lado da minha filha e do meu neto. Graças aos médicos, à força dele e dos pais, o meu neto salvou-se e recuperou. E eu também. No final desse ano, quando as coisas pareciam ter sossegado, andava indisposta, obstipada, inchada, cheia de dores abdominais. Como já nem sequer os clisteres resolviam o problema e as dores se agudizavam, dirigi-me ao hospital da zona da minha residência. Aí, fui operada de urgência a 5 de dezembro de 2010 e foi-me diagnosticado cancro do intestino. Não precisava de ficar com saco de iliostomia, o que foi um alívio. No entanto, quatro dias depois, a situação complicou-se e fui re-operada, tendo-me sido retirada a quase totalidade do cólon e então, sim, fiquei com saco. Eu tinha dito, há uns anos atrás, que, se alguma vez tivesse cancro nos intestinos e houvesse a necessidade de ficar com saco, preferia morrer. Mas não! Também isso se resolveria, com certeza. Embora tivesse sido operada na urgência de outro hospital, fui imediatamente reencaminhada para o primeiro, por necessidade de ser assistida por ventilador. Permaneci uma semana nos Cuidados Intensivos e confesso que não tenho grande consciência desse período. Quando voltei para a enfermaria, tinha 11 tubos e tubinhos a entrarem-me e a saírem-me do corpo. Aí, de vez em quando pensava vagamente que podia morrer, especialmente quando me apareciam, a querer visitar-me, 14 ou 15 pessoas de uma vez. Mas não! O nosso corpo tem uma resistência incrível! Saí do hospital a 3 de janeiro de 2011, fraca, debilitada. Não conseguia fazer nada sozinha, nem sequer tomar banho. Mas estavam lá a minha filha, o meu neto, os meus irmãos, a minha mãe e os meus amigos. Entre janeiro e julho fiz quimioterapia, para a qual foi necessária a colocação de cateter, porque as minhas veias já não aguentavam. Aprendi a viver com o saco. E voltei a chatear toda a gente. E em novembro fui finalmente operada para fazer o restabelecimento do trânsito intestinal e quando voltei a evacuar normalmente! Nunca pensei que um simples cocózito me pudesse dar tanta alegria! Hoje sei que sou uma doente oncológica de risco, sou seguida periodicamente, tanto em cirurgia torácica e abdominal como em oncologia e tenho consciência de que, a qualquer momento, posso voltar a ter cancro. Mas também tenho, aqui à minha espera, a minha filha, o meu neto, os meus irmão, a minha mãe e os meus amigos.
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