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Cristina Coelho da Silva Alves

48 anos Pulmão, 2012, Doente
A 5 de setembro fui diagnosticada com um adenocarcinoma pulmonar. Poucos dias depois, no IPO, informaram-me que era já numa fase avançada e inoperável. Por breves segundos, que pareceram uma eternidade, vi todos os cenários possíveis. Vim para casa sozinha, na minha cabeça só pensava como ia transmitir a notícia aos meus pais, marido e filhos. Os meus filhos, que eu queria tanto ver crescer! Entrei em casa, sentei-me no sofá e ouço num noticiário qualquer que um camião desgovernado tinha colhido mãe e filha que estavam na esplanada de uma cidade deste país. Pensei que elas não tinham tido a sorte de se despedirem, deixarem as coisas organizadas, dizerem tudo o que não se diz por vergonha, receio de parecer lamechas. Logo de seguida pensei que ninguém tem o prazo de validade escrito na testa, eu poderia pertencer aos sobreviventes. Depois, sempre fui "dura de roer", nunca gostei de "perder"... Decidi viver, sorrir sempre, ter uma atitude ativa neste processo, informando-me e fazendo uma alimentação saudável. A palavra de ordem era fortalecer de forma a conseguir fazer o protocolo terapêutico que as minhas queridas médicas estabeleceram. Percebi que com um sorriso, uma piada era tudo mais fácil. Foi duro. Tinha sido avisada que poderia ter de ser entubada para poder ser alimentada. Não queria que os meus filhos vissem a mãe com um tubinho pelo nariz... Aguentei até ao desespero. (…) Sempre que vinha da quimioterapia esforçava-me por fazer algo: um bolo, pão, enfim… lutava contra aquela moleza que vocês conhecem. Neste processo fui à cama três dias. Nesses três dias bati fundo. Olhei-me ao espelho e deixei de ver aquela carequinha, sem pestanas e sobrancelhas, de rosto pálido mas levantado, sempre pintado e com um ar artificialmente saudável, com um brilho nos olhos e pronto para lutar. Vi um farrapo que um dia foi gente. Graças a Deus, a situação reverteu-se. Parei de vomitar e voltei a ser eu...Sempre que podia, caminhava, ia ao colégio ver os meus colegas...Necessitava de sentir aquela energia toda, falar de tudo menos do cancro. Dizer “eu estou cá. Estamos a conseguir" era muito importante. (…) Em julho de 2013, comecei a trabalhar! Sequelas? Sim mas estou viva! (…) O cancro? Esse está cada vez mais quietinho e insignificante. A alimentação é uma arma e estou num ginásio! Tenho cancro mas o cancro não me tem. Nunca teve e sou mais feliz hoje! Não deixo nada por dizer. Tenho um marido espetacular, uns pais que se aguentaram e uns filhos de ouro! É por eles que consegui, aliás, conseguimos. Esta luta não foi ou é só minha, é de todos nós!
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