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Sílvia Trigueiro

38 anos Leucemia, 2010, Doente
Aos 36 anos tive a notícia que mais receava, no dia 10 de março de 2010, um médico disse-me de uma só vez: “tens Leucemia”. Estava sozinha, internada por me sentir demasiado fraca e por me ter sido diagnosticado um problema no intestino grosso, cuja solução seria remover todo o intestino. Como o hemograma estava sempre a alterar-se, mesmo com transfusões de sangue, acharam por bem fazer um mielograma. Sabem? Quando já se perderam dois tios com leucemia, acabamos por ter tanto medo dessa doença, que nem pronunciamos a palavra entre nós, em família. Ouvi-la assim, sozinha, nem consigo descrever esse momento. Aconselhada por uma médica fabulosa, pedi transferência para o IPO, para estar mais perto da família e por achar que devia ser o melhor lugar para ser tratada. Fui transferida no dia 12 de março e a minha chegada foi triunfante. Consegui sentir que essa era a minha salvação, tive logo direito a um quarto de isolamento, quarto que usei durante muito tempo e voltei a usar em diversos internamentos. No IPO repetiram os exames, foi-me diagnosticada uma leucemia mieloblástica aguda com displasia, e tudo começou. Sofri com a ausência das minhas filhas, ainda pequenitas, uma tinha feito um ano em janeiro, e a outra tinha 3 anos e meio, mas foi o querer voltar para elas que me salvou. O meu querido marido fez umas fotos das princesas e elas andavam sempre comigo de quarto para quarto, cada vez que tinha de mudar, havia sempre alguém que levava logo as fotos, para não me sentir perdida. Não sei como funciona com os outros mas, comigo, olhar para elas dava-me toda a força do mundo. Já que ia ter “férias forçadas”, mantinha-me sempre ocupada, a ler, a escrever, em conversas, fazia tudo o que era possível e aproveitei todos os momentos. Tenho momentos guardados com muito carinho e visito frequentemente o hospital, para ter direito aqueles abraços, sorrisos, olhares que tanto me deram e continuam a dar. Tentámos arranjar um dador compatível, em 2 recolhas, mas não conseguimos. Mas a minha querida leucemia tem dado tréguas e eu continuo aqui, cheia de esperança, vivendo todos os dias com muita fé, vendo as minhas filhas a crescer, tendo conversas fantásticas, acreditando que tudo é possível. Tive momentos maus, com dores difíceis, febrões terríveis, dificuldade em movimentar-me, o cabelo não me preocupou nada, tinha mais medo pela reação das minhas filhotas. A mais velha percebeu que o cabelo tinha de cair para eu ficar curada (foi a maneira que ela encontrou), de vez em quando gostava de usar lenços como eu. A pequenita não gostava de me ver de lenço, o que ela pensava nunca vou saber, mas tinha ali toda a minha força. Para além disso, o meu marido foi incansável, fez tudo para que nem eu nem elas estivéssemos sozinhas. A nossa família esteve sempre presente, de mil e uma maneiras, os meus amigos foram uma verdadeira força da natureza e apareceram de todos os cantos, mesmo aqueles com quem já não contactava há alguns anos, por força das circunstâncias. Sou abençoada por ter pessoas assim à minha volta e acredito que os que partiram também estão comigo, como anjos que me protegem e me empurram no caminho mais difícil. Para mim, acreditar é o mais importante. Tive e tenho medo, tenho dias difíceis e noites piores, o dia da consulta é sempre um pesadelo, porque apesar de acreditar que vai estar tudo bem, na verdade não sei. Passei 6 meses internada no IPO, (…) não senti raiva, nem perguntei “porquê eu”, conversei com Deus e aceitei a minha luta, pedi que as minhas filhas não tivessem que passar por nada disto. Acredito que Ele me ouviu, acredito em todos os que estão comigo e nos meus anjos, acredito na força e na crença de todos! Se nos dessem a escolher, talvez não tivéssemos este tipo de doenças, mas não tendo escolha só nos resta lutar. A todos os que sofrem, deixem que o sol continue a brilhar e nunca deixem de acreditar, vale a pena viver! Depois da quimioterapia, dos 6 meses de internamentos, com pequeníssimos intervalos em casa, ainda fui sujeita à cirurgia e removeram-me o intestino grosso quase todo. Ficou apenas o necessário para fazer a ligação ao recto. Mas voltar para casa foi o melhor do mundo e cá estou eu a aprender a preencher os meus dias, cheia de esperança e fé, agradecendo sempre cada novo dia! Acreditem! Bem haja.
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