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Teresa Viegas

35 anos Linfoma Não Hodgkin, 2015, Familiar
Página em branco, vazia de emoções. À nossa volta ouvimos histórias, vemos casos mas estão à distância de um instante que nos coloca a salvo de viver a ilusão. Quando sentimos que nos tocou diretamente, o nosso mundo sofre um acidente em câmara lenta em que as sensações não se assemelham a nada, onde tudo é estranhamente doloroso. Inspirar e expirar parece ser complicado num primeiro momento, o primeiro impacto é como gelo a queimar a pele. Primeiro sentimento de impotência, de incapacidade a rasgar o coração.Absorve-se um mundo de informação em poucas horas, pesquisa-se, lê-se e a sensação de um perfeito ignorante no tema vem à superfície e afoga-se no momento seguinte. Parece que não sabemos ler nem escrever, que tudo é novo e tem que ser apreendido como a função de aprender a atar os ténis.Nunca se pronuncia a palavra proibida, chamam-se nomes técnicos como se fosse um caso de estudo, a palavra cancro não é escutada uma única vez. Especulações, palpites, incertezas, adivinhas, previsões, surpresas, ansiedade, pegamos em todas estas palavras e cozinhamos em lume brando na esperança de respostas feitas, de uma esperança de um final feliz mas sem inquietudes, sem interrogações prolongadas.Primeiros passos e aspira-se um ambiente de olhares inquietos, ambiente carregado sombriamente de uma cor insípida. A dor espelhada nos rostos de várias idades impressiona quem nunca pisou aqueles momentos. Primeira imagem gravada no olhar os bancos do jardim carregados de medos, de murmúrios, de pequenos anúncios de um nostálgico final.Pé ante pé multiplicam-se os exames e continuam sem respostas claras. Diagnostico traçado e a esperança marcada pela cruz que trazes no braço. Cada um na sua vivência agarra a religião, a fé, as preces, as energias, as crenças que nos fazem acreditar. Choque frontal numa realidade silenciosa escondida na sigla de três letras que podia significar lembra-te que “Isto Pode Ocorrer” um dia.Suspensos em palavras desconhecidas, cobertas de medo, de angústia, de uma viagem que embarcamos sem querer e sem sabermos onde terminará. Deixou de ser o outro lado, deixou de passar perto, deixou de ser a porta vizinha, passou a ser tratado por tu e eu, na primeira pessoa.O tempo fica parado nos instantes que esperámos por novidades. Somos figurantes em silêncio e tu a personagem principal, com sentimentos escondidos, prontos a serem libertados.Lágrimas e mais lágrimas vão pintando a nossa história. Apesar de toda a dor presente ainda não te vi a deitar uma lágrima, sempre uma guerreira com um sorriso para dar, com as palavras certas para dizer. Sinto-me de novo uma criança que precisa de miminhos teus, não quero que te ausentes do meu mundo.Benigno, maligno perguntou-me o teu filho, qual é a diferença real? Não é na mesma a palavra proibida? Não te pode levar para longe de nós? Interrogações prolongadas que não encontram resposta.Corridas semanas, as dúvidas enchem-nos a alma, perguntas sem resposta, ouve-se tantos desatinos sem rumo. Primeiro embate, fase um a começar e sem saber o que vai acontecer a seguir sonhamos, e imaginamos que um dia destes não terá passado de um pesadelo pronto a ser esquecido por um sonho repleto de felicidade.Longos caminhos espreitam na entrada, abrimos lentamente a porta e enfrentamos o desafio, vamos lutar sem nunca desistir. As palavras “gostamos de ti e sem ti não sabemos viver”, vão se escrevendo nas paredes do teu quarto para nunca te esqueceres que estás no nosso coração em todos os instantes.Passaram 4 meses desde que foi diagnosticada à minha mãe um Linfoma não-Hodgkin, já passaram 4 sessões de quimioterapia, 2 punções lombares, falta metade do caminho e tantos outros passos. Nunca desistam de lutar, existe sempre uma esperança, aproveitem cada dia como se não existisse amanhã.
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