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Vera Pedro

34 anos Mama, 2012, Doente
Mal eu sabia o que me ia acontecer faz hoje um ano. Tudo começou no início de fevereiro de 2012, primeiro a descoberta do nódulo, o que me deixou logo com um frio na espinha, depois a ida ao médico que me disse que não era nada de especial, para eu não ter medo porque não era nada de grave, mas sugeriu a realização de uma biópsia. Desde esta primeira ida ao médico que o meu dia-a-dia mudou, pois o medo instalava-se dentro de mim dia após dia. Dia de carnaval, dia em que realizei a biopsia e dia em que fui pedida em casamento, uma data a não esquecer por bons e maus motivos. Dia 9 de Março, o dia da descoberta do meu maior pesadelo, desloquei-me sozinha ao médico para saber o resultado da biópsia, o que não aconselho a ninguém fazer, pois sozinha a receber uma notícia tão má parecia que estava a receber a minha sentença final, mas decidi ir sozinha porque já temia o pior e não queria que a minha mãe ouvisse também palavras tão duras de ouvir. Enfim, tudo mudou radicalmente desde esse dia, a minha vida nunca mais foi a mesma, eu nunca mais fui a mesma. Senti que aquela Vera antes do dia 1 de fevereiro morreu ali. Outro dia que jamais esquecerei foi o dia 12 de março, dia em que um médico excecional do Hospital me disse realmente por todo o processo que eu ia passar e onde no final eu li com os meus próprios olhos o que eu tinha, li carcinoma ductal invasivo. Aí sim, tomei plena consciência do que tinha e do que ia sofrer e por tudo o que ia passar. Ali naquele instante caiu-me o mundo em cima, fiquei sem chão, não conseguiria imaginar que isto me pudesse acontecer mas a verdade é que aconteceu (…). Não me lembro do caminho de regresso a casa pois o meu pensamento era o que seria de mim a partir daquele dia e o que seria do meu bem mais precioso, a minha filha de somente 6 anos que ainda precisava tanto de mim. Comecei a realizar exames atrás de exames, sempre com o coração apertado, pois o resultado destes exames era fundamental para todo o tratamento que se seguia. Foram dias angustiantes, dias de muito sofrimento psicológico. No final de março realizei o exame ao gânglio sentinela que felizmente deu negativo (…). Não consigo descrever todo o sofrimento físico e psicológico que a quimioterapia me trouxe. Foram dias e meses horríveis, eu normalmente digo que tive azar pois tive todos os efeitos secundários que estes tratamentos tem. Desde os vómitos, a azia, as dores musculares, a boca ferida, a tensão baixa, as cólicas, todo um mau estar que a quimioterapia traz consigo. Alguns efeitos secundários ainda hoje se encontram dentro do meu corpo. Não posso deixar de referir os momentos marcantes desta doença como a queda de cabelo, toda a transformação física que me deitou abaixo. Foram vários os meses em que não me reconhecia e que não me conseguia ver ao espelho, pois aquela Vera que aparecia no espelho não era aquela que eu conhecia. No dia 6 de setembro foi o dia da mastectomia total com reconstrução. O pós-operatório foi fácil, pela primeira vez sentia que tudo estava a correr melhor do que estava a espera. O medo de ver a nova mama era tremendo, daí durante umas semanas não conseguir olhar para o meu próprio corpo, mas o dia de enfrentar esse corpo chegou e foi uma grande e boa surpresa pois gosto da minha mama. Seguiram-se 25 sessões de radioterapia que me trouxeram um cansaço físico enorme porque os efeitos secundários não foram muitos. Todos os tratamentos terminaram a 19 de novembro e aí senti que tudo estava a chegar ao fim e com sucesso. Agora são as consultas de rotina (…). Hoje estou feliz sinto que renasci que sou uma nova Vera com a esperança e a fé num futuro com muita saúde. Muita coisa aconteceu ao longo deste ano. Com a descoberta da minha doença perdi amizades que achava que eram para a vida. Surgiram novos e esses sim verdadeiros amigos, que nunca me abandonaram. Tive um apoio familiar muito importante e quando digo muito foi mesmo muito importante para eu conseguir lutar contra esta doença que eu chamo de maldita. Para mim esta é a doença da calma pois todo o processo que nós doentes oncológicos temos que passar até estarmos não digo curados mas bem é longo. (…) Quando sentirem que o mundo desabou nas vossas cabeças acreditem que tudo vai melhorar e acreditem que não há mal que sempre dure, nem bem que não acabe, por isso mesmo depois de uma fase menos boa, vem uma boa. Neste momento estou feliz e, para mim, isso agora é o mais importante, tudo o resto é supérfluo (…).
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